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Teatro

Evocação de Marcelino Mesquita no centenário da sua morte

Ocorre este ano o centenário da morte de Marcelino Mesquita (1856-1919). Importa lembrar que Marcelino nasceu no Cartaxo. Tivemos ensejo de questionar a oportunidade de alterar a designação do Centro Cultural do Cartaxo, inaugurado em 2005 e que já aqui referimos na análise da sua expressão arquitetónica e da respetiva atividade cultural.


Nesse sentido, referimos designadamente a tradição de espetáculo que antecedeu este edifício de cultura.

Assinalamos a qualidade do projeto arquitetónico de Cristina Veríssimo e de Diogo Burnay. E é sempre de recordar que o Cartaxo tem uma certa tradição de centros de espetáculo cultural. Aquilo a que chamamos a geração dos cineteatros teve aí uma expressão interessante, com um Cineteatro Ribatejano inaugurado em 1947. Ora seria então de lembrar que no ano anterior celebravam-se 90 anos do nascimento de Marcelino: mais valera homenagear nessa altura o dramaturgo!

Há pois fortes razões para agora assinalar-se especificamente o centenário da morte de Marcelino Mesquita e justamente salientar o que significa a sua vasta obra teatral, num conjunto de dramas e comédias que conciliam a qualidade dramática com a heterogeneidade de estilos mas sobretudo com o sentido de espetáculo inerente.

Estamos à vontade para o referir. De 2006 a 2009, tivemos o gosto e o interesse de publicar na INCM quatro volumes de Teatro Completo de Marcelino Mesquita, antecedidos de um longo texto de pesquisa, organização e introdução da nossa autoria. E seja permitido este levantamento: um total de 28 peças de Marcelino Mesquita e um total de 1773 páginas dos quatro volumes da edição...

E também é interessante verificar onde estas peças (as que o foram) subiram à cena. Aí, o que conseguimos  confirmar foi o seguinte:

Teatro de D. Maria II – 7 peças.

Teatro D. Amélia (hoje Teatro São Luis) – 5 peças.
Teatro do Príncipe Real (hoje desaparecido) –uma peça.
As restantes não foram na época representadas – e muitas delas até hoje...

Ora bem: seja-nos permitido transcrever uma carta de Marcelino Mesquita, que localizamos no arquivo do Teatro Nacional de D. Maria II quando fizemos as pesquisas para a edição do Teatro Completo acima referida.

A carta é dirigida ao Ministro da Instrução, datada de 8 de junho de 1918, rigorosamente um ano antes da morte de Marcelino, ocorrida em 7 de junho de 1919.

“Mataram o Teatro Nacional: as intrigas mesquinhas dos bastidores, as injustiças na valorização dos méritos, as proteções escandalosas, os desleixos de mando e de direção, as incompetências com força, as rivalidades, os ódios, os ciúmes, toda a farrapagem da vida teatral, dando a indisciplina absoluta, a desorganização extrema, a morte vergonhosa. Sendo assim, como é, a V. Ex.ª compete vincular o seu nome a uma grande obra. Não a de restaurar mas a de criar de novo o Teatro Português. Seria ingenuidade da minha parte querer ensinar a V. Exª. a ação poderosíssima que pode, num povo da nossa constituição e temperamento, da nossa falta de cultura, exercer um teatro sério, digno, elevado. Basta conhecer a ação dissolvente do teatro português, de há vinte anos para cá, na nossa classe média, para concluir que poderosa lição possa ser a sua, vista, ouvida, vivida, para um povo que ainda não lê e pensa pelo jornal”...

(cfr. Marcelino Mesquita “Teatro Completo” Pesquisa, organização e introdução de Duarte Ivo Cruz, vols. I a IV, ed. Imprensa Nacional – Casa da Moeda 2006/2009). 

Duarte Ivo Cruz

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