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Robert Frank, ícone da fotografia do século XX

Fotógrafo norte-americano morreu aos 94 anos. Livro "Os Americanos", que presenta imagens captadas em meados dos anos 50 do século passado, marcou uma era.

Elétrico em Nova Orleães, 1955, do livro "Os Americanos". Foto: Robert Frank/Fotostiftung Schweiz, Winterthur


O fotógrafo norte-americano Robert Frank, ícone da fotografia do século XX, morreu na segunda-feira, aos 94 anos, no Canadá, anunciou o galerista Peter MacGill.

A notícia foi dada pelo jornal “The New York Times”, citando o responsável pela Pace-MacGill Gallery, de Manhattan, que representava o artista de origem suíça que residia há décadas no Inverness, Nova Escócia, Canadá.

Robert Frank celebrizou-se através do seu livro "Os Americanos" (1958), com imagens a preto e branco captadas em viagens que realizou pelos Estados Unidos, e que se tornou num manifesto contra a tradição mais conservadora da fotografia, com um grande impacto nas gerações que se seguiram, reforçado pelo texto de Jack Kerouac, que acompanha a obra, desde a edição original.

O livro apresenta imagens captadas em meados dos anos 1950, com autoestradas, carros, paradas, 'jukeboxes' e os típicos 'diners' (restaurantes) que retratavam a América daquela época e, ao mesmo tempo, sugeriam uma espécie de alienação do estilo de vida americano.

"Os Americanos" - criado com uma bolsa da fundação Guggenheim - tornou-se um livro seminal da fotografia, transformando Robert Frank num dos mais aclamados autores do século XX, também pela controvérsia provocada pelo seu estilo aparentemente leve e casual, mas de impacto imediato.

Colaborador regular como fotógrafo de revistas como Harper's Bazaar, Fortune, Life, Look, McCall's, Vogue e Ladies Home Journal, Robert Frank passou depois a interessar-se por cinema, criando clássicos da subcultura norte-americana como "Pull My Daisy" (1959), o seu primeiro filme, um dos títulos pioneiros do cinema independente norte-americano, centrado na Beat Generation, com participações de autores como Allen Ginsberg e Kerouac, que escreveu o comentário irónico, dito em 'off'.

Nascido na Suíça, em Zurique, a 9 de novembro de 1924, Frank foi para Nova Iorque, aos 23 anos, justificando depois ter saído do seu país de origem devido à "mentalidade pequena" dos valores vigentes.

Filho mais novo de pais judeus, estudou com designers gráficos em Zurique, Basileia e Genebra, tornando-se grande admirador de Henri Cartier-Bresson, cofundador da famosa agência Magnum, em 1947, dedicada à fotografia.

Em 1961, realizou a sua primeira grande exposição no Instituto de Arte de Chicago e, a partir de 1971, instalou-se numa zona selvagem do Canadá, onde vivia com a mulher, continuando a realizar um trabalho de autor, muito introspectivo, na área do cinema e da fotografia.

Em 1965, realizou o filme "Me and My Brother", e ainda "Candy Mountain" (1988), com Rudy Wurlitzer, de caráter autobiográfico.

Em "Conversations in Vermont" (1969), abordou a sua relação com os filhos, através da fotografia e dos álbuns de família, num diálogo sobre sentimentos, educação e o que representou para eles crescer num mundo boémio com pais artistas.

A Cinemateca Portuguesa tem incluído na sua programação diversos filmes do fotógrafo-cineasta. Assim aconteceu em 2018, durante o ciclo "24 Imagens", dedicado a cinema e fotografia, com a exibição de algumas das suas obras iniciais.

Em 2016, a Cinemateca apresentou "Don't Blink, Robert Frank", documentário dirigido por Laura Israel, que editou os filmes de Robert Frank desde os anos de 1980/1990, sobre todo o seu percurso.

"Harry Smith at the Breslin Hotel" (2018), "Cool Man in a Golden Age" (2010), sobre o artista Alfred Leslie, e "True Story" (2004), com instantâneos de vida familiar em casas de Nova Iorque e da Nova Escócia, são alguns dos documentários mais recentes de Robert Frank.

Em 2010, o fotógrafo que está na origem de todas as imagens que fazem a capa de "Exile on Main Street" (1972), dos Rolling Stones, acompanhou a reedição do álbum com o vídeo da canção bónus "Plundered My Soul".

Um ano antes, em 2009, o centro de arte contemporânea Jeu de Paume, em Paris, fez uma exposição retrospetiva da obra de Robert Frank e, mais recentemente, em 2015, a National Gallery de Washington colocou na sua página da Internet uma coleção com cerca de oito mil obras do fotógrafo e documentarista, produzidas entre 1937 e 2005, entre as quais a série "Os Americanos".

Em entrevistas, questionado sobre a razão de ter fotografado tanto a pobreza na América, Robert Frank respondia que o fez, porque gostava de retratar pessoas lutadoras. E porque tinha aversão àqueles que ditavam as regras.


in Renascença | 10 de setembro de 2019
notícia no âmbito da parceria Centro Nacional de Cultura | Rádio Renascença  

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