"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"

A Vida dos Livros

"Antero, Portugal como Tragédia"

Acaba de ser publicado o volume VII das Obras Completas de Eduardo Lourenço (Fundação Calouste Gulbenkian, 2019) com prefácio, organização e notas de Ana Maria Almeida Martins. Trata-se de uma obra fundamental, na qual é o grande ensaísta que se apresenta na lógica sequência do grande Mestre que foi Antero de Quental.


A VIDA DOS LIVROS, por Guilherme d'Oliveira Martins
de 9 a 15 de setembro de 2019

GRANDE INTÉRPRETE DE PORTUGAL
Falar de Eduardo Lourenço é invocar o grande intérprete de Portugal. E se é um português que fala, o certo é que a sua reflexão abre horizontes, recusando uma visão fechada ou retrospetiva da nossa identidade, abrindo-lhe novas dimensões, não providenciais ou mitológicas, mas capazes de integrar o imaginário crítico num diálogo diacrónico e sincrónico de diversos tempos e culturas. Para o ensaísta, Antero de Quental é a maior referência intelectual portuguesa e o primeiro português que teve uma consciência trágica do destino humano. E assim Antero marcou o começo da nossa modernidade, sendo o seu verdadeiro fundador. As Conferências Democráticas, as Causas da Decadência, mas também o pensamento filosófico são marcos decisivos que se projetam na modernização e na abertura da cultura portuguesa e das culturas de língua portuguesa. Mas Eduardo Lourenço chama-nos a atenção para que não devemos esquecer quantos ainda se opõem a Antero e ao que ele continua a significar: “a visão unanimista da Geração de Setenta que tem nele o seu ícone cultural esconde mal os conflitos e antagonismos, as rivalidades, surdas ou clamadas, que com matéria viva o atravessaram”. E pode dizer-se que este alerta é válido para Antero e para Eduardo Lourenço, uma vez que uma leitura atenta do ensaísmo do autor de “O Labirinto da Saudade” está muito longe de simplificações, quiçá providencialistas, que quer Antero quer Lourenço sempre recusaram. O autor de «Portugal como Destino» é uma personalidade multifacetada que se singulariza pela coerência entre um pensamento independente e uma permanente atenção à sociedade portuguesa, à sua cultura, numa perspetiva ampla, avultando a reflexão sobre uma Europa aberta ao mundo e nunca fechada numa qualquer fortaleza encerrada no egoísmo e no preconceito. Em lugar de alimentar uma ilusão sobre qualquer lusofonia paternalista ou uniformizadora, o ensaísta alerta-nos para a exigência de entendermos a modernidade como um ponto de encontro entre a racionalidade ou o idealismo e a emotividade dramática e poética.

A PROCURA DAS RAÍZES
É a imagem e a miragem da lusofonia que têm de ser encaradas a partir da «chama plural» que leva a entender que língua alguma é invenção do povo que a fala, já que é a fala que o inventa. Sob a influência inequívoca de Antero de Quental, como reconheceu em «Poesia e Metafísica», o pensador exprime a sua grande admiração pelo facto de o voluntarismo do autor dos «Sonetos» não abdicar «da referência ética, no sentido mais radical, e esta, por sua vez, só encontra o seu fundamento na referência metafísica e o seu cumprimento como ideal último naquela aspiração que ele designou de “santidade”. Que no final da sua vida a tenha concebido mais sob a forma budista que cristã nada retira à exigência que nela se encarna. A esse título, Antero é o único intelectual comprometido com a ação que não transigiu com o comum espírito do seu tempo. No entanto, «os homens de alta exigência ética e mística – e Antero foi um deles – são sempre um pouco arcaicos» - como salienta, com aguda lucidez, num tempo demasiado carregado de leituras fechadas e definitivas. E se falamos da importância de uma geração que só por ironia pode ser qualificada de vencida, tão grande foi a sua influência, como só acontece para situações absolutamente excecionais, temos ainda de voltar ao facto de ter sido Eduardo Lourenço a ver no «universo» de «Orpheu» o que vai muito para além da circunstância em que se afirmou.

O QUE TÍNHAMOS A PROVAR, PROVÁMOS
Mas o ensaísta de «Labirinto da Saudade» é perentório: «Não temos nada que provar. O que tínhamos de provar ao mundo já provámos quando isso era uma novidade e constituía uma ação para a humanidade inteira. Temos sempre este complexo de ser uma pequena nação não tão visível como outras. Mas outras nações também não são visíveis». Não somos melhores ou piores, somos nós mesmos. Portugal é uma série de milagres. Herculano chamou-lhe vontade. «Não se sabe assim como é que há quase mil anos este país pequenino, aqui no canto da Europa, é ainda sujeito do seu próprio destino.». A História é uma batalha cultural, sempre. «A Europa define-se na sua relação com o que não é Europa. Só sabemos o que é Europa quando estamos fora da Europa. Na Europa temos uma experiência normal. É como a experiência de quem está em casa. Há até uma pluralidade de casas que, mais ou menos, têm afinidades entre elas. Isso é a Europa». Mas há ameaças e perigos, e até a indiferença e a acomodação. Falta a normalização connosco próprios. Perante tantos sinais de incerteza persiste uma miragem europeia. Contudo, a Europa fechada definha. Importa tirar lições, procurando caminhos que permitam encontrar a defesa de um pequeno e eficaz núcleo de interesses e valores comuns. Premonitoriamente, em nome da geração nova foi Antero de Quental quem definiu o programa positivo, que nunca poderá ser confundido com qualquer lógica de “vencidismo”. Se dúvidas houvesse, aqui está o corolário lógico da análise das causas da decadência. Só o sentido crítico permitirá retomar um caminho positivo de transformação e de progresso. Para muitos, depois da dureza do discurso, fica a surpresa pela determinação conclusiva. E pode dizer-se que o ensaísmo de Eduardo Lourenço assenta nesta extraordinária visão – que mais atrás se encontra em Garrett e Herculano e que se traduz na vivência dos fatores democráticos na formação de Portugal que o melhor ensaísmo do século XX desenvolveu. É a fidelidade de Antero à memória, é a compreensão da força das raízes, é a exigência da radicalidade crítica da modernidade que aqui se sente: «Meus senhores: há 1800 anos apresentava o mundo romano um singular espetáculo. Uma sociedade gasta, que se aluía (…) ao lado dela, no meio dela, uma sociedade nova, embrionária, só rica de ideias, aspirações e justos sentimentos, sofrendo, padecendo, mas crescendo por entre os padecimentos. A ideia desse mundo novo impõe-se gradualmente ao mundo velho, converte-o, transforma-o: chega um dia em que o elimina, e a Humanidade conta mais uma grande civilização. Chamou-se a isto o Cristianismo. Pois bem, meus senhores: o Cristianismo foi a Revolução do mundo antigo: a Revolução não é mais do que o Cristianismo do mundo moderno».

Guilherme d’Oliveira Martins

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