"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"

Trinta Clássicos das Letras

"Os Irmãos Karamázov" de Fiódor Dostoiévski


Capítulo X
 


«Os Irmãos Karamázov é, segundo Freud, o romance mais magistral que alguma vez se escreveu, e nunca seremos capazes de apreciar devidamente o episódio do Grande Inquisidor, que é uma das maiores realizações da literatura mundial».

Aliocha, Dmítri e Ivan são os irmãos Karamázov. E nesta narrativa polifónica, Fiódor Dostoiévski (1821-1881) busca a essência da natureza humana "capaz de conter todo o género de contrários e contemplar de uma só vez ambos os abismos, o abismo de cima, o dos ideais superiores, e o abismo de baixo, o da mais ignóbil e abjeta queda" - como é dito no julgamento nas páginas finais da obra. Pouco antes de começar a escrever sua obra-prima, em fevereiro de 1878, Dostoiévski aceitou o convite do czar Alexandre II para ser tutor informal dos seus filhos mais novos, Sergei e Paulo, e em maio de 1878 sofre o drama da morte de seu filho Aleksei (Aliosha). Os Irmãos Karamazov começaram a ser escritos em abril de 1878 e a publicação da primeira parte ocorreu em fevereiro de 1879 na revista “O Mensageiro Russo”, com sucesso imediato Em 7 de novembro, foi terminada a segunda parte, sendo publicada a obra em dois volumes, logo com grande êxito. São desse período o atentado contra o czar Alexandre II por Alexandre Soloviev de 1879 e o célebre discurso de Dostoiévski na inauguração do monumento a Alexandre Pushkin… O romance desenvolve-se em torno de uma família cujo pai é um palhaço profissional com uma vida devassa. Numa querela patrimonial entre o pai e o primogênito, envolvendo também a disputa por uma mulher, dá-se o momento trágico do parricídio, o filho mata Fiódor Pavlovitch Karamázov. Mas, o coração de Os Irmãos Karamázov não é a morte do pai, é o monólogo de Ivan sobre o Grande Inquisidor, onde o escritor põe a sua fundamental interrogação. Esse poema passa-se na Sevilha do século XVI. Cristo regressou à terra e está nas mãos do Inquisidor, que o reconheceu e mandou prender. E é o Inquisidor quem fala: “Não estamos contigo mas com Deus, eis o nosso segredo! Há muito que não estamos contigo, mas com Ele (…) Fica sabendo que também eu estive no deserto, me alimentei de gafanhotos e raízes, que também eu abençoei a liberdade com que abençoaste as pessoas (…). Mas caí em mim e não quis servir a loucura. Voltei e juntei-me à legião daqueles que corrigiram a Tua Obra. (…) Se alguma vez existiu alguém que mais merecesse a nossa fogueira, esse alguém és Tu. Amanhã queimar-Te-ei.". Aliocha contesta que o Inquisidor represente esse mundo. E responde a Ivan: "Isso é Roma, e nem sequer toda a Roma". Mas Ivan faz um retrato implacável da Igreja Católica Romana, por oposição a um cristianismo em que o verdadeiro amor do outro é possível. A cena do Grande Inquisidor é apenas uma das muitas em que Aliocha é confrontado com os demónios, como acontece no diálogo com Lisa: "Não quero fazer o bem, quero fazer o mal, e nisso não há doença nenhuma”. A busca do “homem no homem” é o objetivo essencial do genial autor russo e a síntese dessa busca está neste verdadeiro livro-testamento. A procura do "homem no homem" significa a consideração da importância fundamental do outro e da relação que permite dizer ao nosso próximo "tu és". E este reconhecimento do outro como o complemento natural de nós mesmos representa a consideração de que a existência do outro é vivida por mim como a outra parte do eu, sem a qual estarei incompleto – se tu és, logo eu sou. 

Agostinho de Morais

 

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