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Portugal à caça do Leopardo com três longas a concurso em Locarno

A competição oficial de Locarno recebe 17 longas entre as quais filmes de Pedro Costa, João Nicolau e Basil da Cunha. 

Com "Vitalina Varela", Pedro Costa tem este ano a sua quarta entrada no concurso principal do festival DR "Technoboss", de João Nicolau. A história de um "caixeiro viajante" à beira da reforma, interpretado (na sua primeira experiência frente às câmaras) por Miguel Lobo Antunes DR "Prazer, Camaradas!": o investigador e cineasta José Filipe Costa pega em experiências verídicas do pós-25 de Abril, vividas por estrangeiros e emigrantes. DR "O Fim do Mundo", Basil da Cunha DR


Um número sem precedentes para um festival que continua a acarinhar o cinema português.

2019, ano de ouro em Locarno: três longas-metragens de cineastas portugueses na competição principal, para um total de seis presenças (todas em estreia mundial) na seleção oficial. Acontece na 72.ª edição do festival suíço, que começou na quarta-feira, arrancou esta quinta-feira com as secções competitivas e se prolonga até dia 17. Três candidatos potenciais ao Leopardo de Ouro que, até hoje, apenas veio uma vez para Portugal — com O Bobo, de José Álvaro de Morais, em 1987. A presença portuguesa na seleção de 2019 confirma que este é o festival que mais atenção tem prestado nos últimos anos ao cinema que por cá se vai fazendo. O que, aliás, tem sido sublinhado pelos prémios recebidos nos últimos anos — à cabeça o Leopardo de Ouro das curtas para António e Catarina de Cristina Hanes (2017), e os prémios de Melhor Realizador para João Pedro Rodrigues (O Ornitólogo, 2016) e Pedro Costa (Cavalo Dinheiro, 2014).

Pedro Costa, aliás, tem este ano a sua quarta entrada no concurso principal do festival; Vitalina Varela, no qual o realizador trabalha há vários anos com o seu sigilo habitual, sucede em Locarno a No Quarto da Vanda (premiado em 2000 com uma menção especial), ao filme coletivo Memories (Prémio Especial do Júri em 2007, partilhado com Eugène Green e Harun Farocki) e a Cavalo Dinheiro. Costa nunca saiu de Locarno sem um prémio e isso, conjugado com a sua aclamação global como um dos maiores cineastas contemporâneos, torna-o no grande favorito da bolsa de apostas para o Leopardo de Ouro. O júri de Locarno (este ano presidido pela realizadora Catherine Breillat) tem, nos últimos anos, entregue o prémio máximo a realizadores singulares e profundamente individuais como Costa — casos de Albert Serra, Jean-Claude Brisseau, Lav Diaz, Wang Bing ou Hong Sang-soo. (O palmarés será revelado na tarde de sábado 17.)

Ao lado de Costa no Concurso Internacional, João Nicolau mostra a sua terceira longa, Technoboss, falso musical artesanal com canções de Pedro da Silva Martins ou Norberto Lobo sobre um “caixeiro viajante” à beira da reforma, interpretado (na sua primeira experiência frente às câmaras) por Miguel Lobo Antunes. Quanto a Basil da Cunha, mostra O Fim do Mundo, nova história da Reboleira onde se instalou “de armas e bagagens” há quase uma década, ficção solta interpretada por atores não-profissionais à volta de um jovem recém-saído de um instituto correcional que regressa ao bairro sem esperanças de futuro.

Ao todo, serão 17 os filmes na competição principal de Locarno, dos quais se destacam During Revolution de Maya Khoury, um olhar de dentro sobre os eventos na Síria entre 2011 e 2017, The Last Black Man in San Francisco de Joe Talbot, um dos filmes mais aclamados pela crítica americana este ano, ou Les enfants d’Isadora de Damien Manivel, à volta da lendária bailarina Isadora Duncan.

Na paralela Cineastas do Presente, aberta exclusivamente a primeiras e segundas obras, a presença portuguesa vem através da dupla luso-suíça formada por Maya Kosa e Sérgio da Costa. Os autores de Rio Corgo apresentam aqui L’île aux oiseaux, docu-ficção sobre um jovem que convalesce de uma longa doença num santuário de aves. Entre os 16 títulos nesta competição reconhecemos um outro nome: o da atriz e cantora Jeanne Balibar (que Pedro Costa filmou em Ne change rien e que foi a Barbara de Mathieu Amalric) que mostra a sua segunda realização, Merveilles à Montfermeil.

Fora de concurso, mostrar-se-á Prazer, Camaradas!, onde o investigador e cineasta José Filipe Costa (Linha Vermelha) pega em experiências verídicas do pós-25 de Abril, vividas por estrangeiros e emigrantes regressados que vieram para as cooperativas rurais, e recria-as nos nossos dias com muitos daqueles que as viveram efetivamente. Prazer, Camaradas! partilha a presença fora de concurso, entre outros, com os novos filmes do canadiano Denis Côté (Wilcox), do espanhol José Luis Guerin (a curta sobre Lanzarote De una isla) e do grego Yorgos Lanthimos (a curta Nimic, com Matt Dillon). Finalmente, entre as 29 curtas a concurso na secção Pardi di Domani, há uma produção portuguesa, Vulcão: o que sonha um lago, realizada pela artista romena Diana Vidrascu no âmbito de uma residência no festival açoriano Walk & Talk.

Na Piazza Grande exibir-se-á o novo Tarantino, Era uma vez… em Hollywoodou o documentário de Asif Kapadia (Senna) sobre Diego Maradona, e o festival homenageia este ano o transgressivo cineasta John Waters (com uma retrospectiva que inclui os infames Pink Flamingos e Polyester) e a atriz Hilary Swank (de quem mostrará os seus dois Óscares de melhor atriz, Os Rapazes Não Choram e Million Dollar Baby). 


por Jorge Mourinha in Público | 8 de agosto de 2019
Notícia no âmbito da parceria Centro Nacional de Cultura | Jornal Público

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