"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"

Trinta Clássicos das Letras

D. Quixote de La Mancha

Miguel de Cervantes y Saavedra (1547-1616) é o genial autor de “O Engenhoso Fidalgo D. Quixote de la Mancha” (1605), a que se seguiu uma segunda parte intitulada “O Engenhoso Cavaleiro D. Quixote de la Mancha” (1615).


Estamos perante um extraordinário conjunto de acontecimentos inverosímeis, a começar na jamais sonhada aventura do valoroso cavaleiro com os moinhos de vento, acompanhado do seu fiel escudeiro – sob a invocação de leituras como as de Palmeirim de Inglaterra e Amadis de Gaula. Poderemos dizer que, com o nosso Fernão Mendes Pinto, se trata da criação do romance moderno, em que a vida se torna presente na narrativa, para além da edificação moral ou de uma perspetiva distanciada da singularidade. E assim o picaresco surge como poderosa arma crítica – marca indelével das letras peninsulares. Cervantes usou, de facto, a ironia para fazer a crítica severa de quantos se deixaram prender pelo passado, em vez de assumirem os desafios do novo tempo. Como disse Emilio Castelar: «os livros de cavalaria são o protesto contra o feudalismo e Cervantes a grande estátua que coroa o Renascimento». É a luta entre o Médio Evo e a Renascença. Sancho Pança, Dulcineia de Toboso, Rocinante ocupam este universo que misteriosamente nos fascina, apercebendo-nos, a cada passo, que é um novo mundo que se perfila no horizonte, depois de novas descobertas na ciência e na geografia, nas artes e nos povos…     

E lembramo-nos do surpreendente desenlace da obra-prima de Cervantes: «Senhores, mais devagar! (…) – O que lá vai, lá vai. Ontem fui louco, hoje estou são de juízo. Fui D. Quixote de la Mancha e sou agora, repito, Alonso Quijano, o Bom. Possam Vossas Mercês perante o meu arrependimento e verdade restituir-me à estima que lhes merecia e o senhor tabelião tenha a bondade de continuar…». D. Quixote procura, assim, renegar a ponta de loucura que dominara a sua movimentação. Mas os seus companheiros irão desejar que tudo continue na mesma, como se de um sonho se tratasse que deveria continuar… A verdade é que, se Cervantes faz a crítica, certeira, rigorosa e indesmentível, dos males do seu tempo, de que a doentia presença dos romances de cavalaria (pelo menos de alguns) seria sintoma, o cavaleiro da triste figura é a real personificação da representação de quem se deixara arrastar por aventuras fantasiosas retiradas de uma mistura fantasmática da imaginação e da realidade. O certo é que estamos perante uma outra atitude que tem a ver com a realidade de que fazemos parte. O quixotismo é o enfrentamento da realidade com sonho e sentido utópico. Sancho Pança procura, de certo modo, reconduzir as coisas ao concreto e ao senso comum. Mas não deixa de assumir o paradoxo, bem evidente no referido epílogo, entre a recusa de continuar a loucura e o desejo de que tudo se mantenha… 

Não por acaso, Miguel de Unamuno disse que a filosofia em Espanha se apresentava na «alma» do seu povo como «a expressão de uma tragédia íntima análoga à tragédia da alma de D. Quixote, como expressão de uma luta entre o que o mundo é, tal como no-lo mostra a razão da ciência, e o que queremos que seja, segundo o que nos diz a fé da nossa religião. E nesta filosofia reside o segredo do que nos é apontado, mas que estamos longe de saber o que é». Miguel de Cervantes e o seu talvez alter ego Alonso Quijano ou D. Quixote fazem-nos o relato e a vivência das desventuras de quem, a um tempo, nos fala do passado, sonhando com conquistas inverosímeis, mas não esquece com estranheza o presente e os seus problemas tão diversos e necessários… 

Agostinho de Morais

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