"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"

A Vida dos Livros

II Colóquio Internacional Sophia de Mello Breyner Andresen

A decorrer na Fundação Calouste Gulbenkian, nos próximos dias 16 e 17 de maio. 


A VIDA DOS LIVROS, por Guilherme d'Oliveira Martins
De 13 a 19 de maio de 2019

UM EXEMPLO DE CIDADANIA

O centenário de Sophia de Mello Breyner Andresen é especial, muito para além de mera comemoração. O exemplo de cidadania, de talento, de ligação natural entre a ética e estética é fundamental. De facto, estamos perante uma personalidade extraordinária que é lembrada como referência única, como um exemplo que fica, que persiste. Era a “pura liberdade” que lhe importava – e, por isso, temos de lembrar o “espaço de liberdade” que animou com Francisco de Sousa Tavares e foi lugar de debate e de acolhimento de jovens intelectuais e artistas, que tomaram como referência a sua presença, a sua palavra e o seu gesto. “No Centro Nacional de Cultura (CNC) fiz de tudo” – dizia Sophia de Mello Breyner… E nesse tudo, estiveram os cargos estatutários, mas sobretudo tudo o que decorria de uma solidariedade saudável e comprometida. “Discuti, li versos, fiz limpezas quando faltava a mulher-a-dias, organizei festas de Carnaval com rissóis e bebidas, mascarei-me, dancei e – coisa que mais do que detesto – fiz conferências. Não havia dinheiro para nada e era tudo improvisado e cada um fazia o que podia, o que sabia ou o que era preciso. Era um tempo de fervor e de dedicação gratuita. A amizade era concreta. E acima de tudo discutia-se tudo: os sistemas políticos, os problemas sociais, os problemas religiosos, o Corbusier, a pintura moderna, o surrealismo, o Fernando Pessoa, a literatura portuguesa, a literatura brasileira, a literatura americana, a guerra de África. À discussão cada um trazia o que sabia e também o que era”…

Pode dizer-se que Sophia e Francisco foram, num tempo decisivo, almas de um clube de ideias que soube persistir e fazer da liberdade a sua marca indelével, perante todas as dificuldades. E quando vemos as imagens a preto e branco da saída dos presos políticos de Caxias, pouco depois da revolução, é com muita emoção que presenciamos o entusiasmo e a alegria de Sophia, o zelo profissional e cívico de Francisco, acompanhados de seu filho Miguel, ao lado de Jorge Sampaio, José Manuel Galvão Teles, Francisco Salgado Zenha ou João Bénard da Costa… E Nuno Teotónio Pereira com tantos outros a sair da prisão e a manifestar uma enorme esperança no novo tempo que se iniciava. Ele que animara no CNC tantas reuniões clandestinas que pugnavam pela liberdade, pelo direito à informação e pela autodeterminação dos povos. Naquele momento em que os portões se abriram estava viva a imagem do encontro entre os que tinham lutado pela liberdade, não apenas com palavras vagas, mas com gestos concretos de coragem e determinação. Os que saíam e os que os acolhiam tinham uma causa comum – a liberdade, a democracia e os direitos humanos. Para quem conhece a história do CNC sabe que aqueles abraços, aquela genuína manifestação de solidariedade correspondiam a um trabalho generoso e persistente, conseguido através de um percurso longo e difícil, que Sophia lembrava: “Às vezes a Pide aparecia: um dia fez uma busca à procura de uns papéis que não encontrou porque o Francisco os tinha escondido no frigorífico. Em certas sessões surgiam homens cinzentos e calados, com a gabardina abotoada até ao queixo e um ar simultaneamente taciturno e comprometido; ‘poker faced’”.

RESISTÊNCIA COMO MODO DE AÇÃO

Não por acaso, contamos com muitos dos seus escritos e poemas como referências essenciais da resistência: levantou a sua voz em defesa do Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes; mas também contra a injustiça da desclassificação do monumento para Sagres “Mar Novo”, de João Andresen, Barata Feyo e Júlio Resende, que assinalaria a memória das Navegações portuguesas: na vigília do Dia Mundial da Paz de 1969 na igreja de S. Domingos disse com firmeza: “Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar” – e com que genuína emoção: ouvimos o poema, dedicado a Francisco: “Porque os outros se mascaram mas tu não / Porque os outros usam a virtude / Para comprar o que não tem perdão / Porque os outros têm medo mas tu não”. Cada palavra desse poema é uma marca firme contra a indiferença e a pusilanimidade, é uma lição cívica e ética. E daí a autoridade plena com que Sophia pôde dizer em Abril: “Esta é a madrugada que eu esperava / O dia inicial e limpo / Onde emergimos da noite e do silêncio / E livres habitamos a substância do tempo”. E quando ouvimos as suas palavras na Constituinte sobre a liberdade da cultura, vemos que se mantêm sem ruga nem mácula.

UMA INICIATIVA ABERTA

Deste modo, o CNC correspondeu ao apelo de Maria Andresen (do mesmo modo que acolheu o espólio, hoje na Biblioteca Nacional de Portugal) para apoiar a afirmação do legado cultural que Sophia deixou. Não poderia ser de outro modo. Muito mais do que um momento, do que se trata é de dizer que Sophia deve ser lembrada nas diversas facetas em que se singularizou – tendo a sua obra de ser considerada na globalidade, não esquecendo quantos inspirou. Assim, as iniciativas a realizar ou realizadas são múltiplas. E há uma preocupação da apoiar a liberdade e a criatividade. A consulta do sítio centenáriodesophia.com permite compreender a diversidade de temas e de participações, devendo perceber-se que não é exaustivo, já que não pode esquecer-se a multiplicidade de outras iniciativas, que correspondem à adesão espontânea de muitos admiradores da autora de Livro Sexto. Os colóquios de Lisboa na Gulbenkian, do Porto, de Lagos, de Roma, do Rio de Janeiro (sobre Sena e Sophia), de Macau, da Casa Pessoa e da Fundação de Mateus correspondem à reflexão multifacetada sobre a apaixonante obra da autora. O Conto Musical “A Menina do Mar”, do LU.CA Teatro Luís de Camões, com direção musical de Martim Sousa Tavares, traz-nos o famoso conto de Sophia transformado em voz e música e feito espetáculo sobre a amizade entre as coisas da terra e as coisas do mar. O livro Almadilha – Ensaios sobre Sophia de Mello Breyner Andresen, de Frederico Bertolazzi; a mostra “Olhares Mútuos: Maria Helena Vieira da Silva e Sophia” na Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva; o espetáculo “Na Substância do Tempo” – eco da poesia de Sophia no mundo visível da dança de Vasco Wellenkamp e da Companhia Portuguesa de Bailado Contemporâneo; a Exposição Itinerante “Lugares de Sophia” com fotografias de António Jorge Silva, Duarte Belo e Pedro Tropa; ou o Concerto de 6 de novembro, no Teatro Nacional de S. Carlos com o “Orfeu e Eurídice” de Cristoph W. Gluck são exemplos de um ano pleno de iniciativas, em que há sobretudo uma preocupação de homenagear com a maior dignidade e diversidade alguém a que a cultura portuguesa tanto deve. Afinal, nunca esquecerei o dia em que na atribuição do seu nome à Escola Básica Sophia de Mello Breyner, de Carnaxide, pediu expressamente que os alunos representassem de cor “A Menina do Mar” e, numa tarde fantástica, com centenas de pessoas a aclamá-la, emocionou-se ao ver aqueles meninos e meninas das mais diversas origens geográficas, cumprirem à letra o seu pedido e serem extraordinários atores, sem falhas nem hesitações… E todos entendemos o que significa dizer: “a minha terra é o mar”, como definição da nossa cultura.    

Guilherme d'Oliveira Martins
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