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Património

Pode um museu guardar a paisagem?

Há paisagens que se vêem, ouvem e comem. Que são património, memórias, imaginações e desilusões. A paisagem é viva e não pode ser congelada. Mas pode dar corpo a um museu.

Equipa do Museu da Paisagem (da esquerda para a direita) João Abreu, Rita Máximo, Matilde Reis, Catarina Neves, Joana Gregório, Maria Manuel Pedrosa Parte da equipa do Museu da Paisagem na Aldeia Avieira da Palhota Mapa da Bacia Hidrográfica do Tejo com os 40 locais que dão corpo ao guia S. Pedro de Vir-a-Corça


Quando João Abreu era pequeno, o avô dizia-lhe: “Vamos ali ver a vista.” Nascido em Moçambique, em 1974, João passou os primeiros meses de vida na freguesia de Gaula, no concelho de Santa Cruz, na Madeira. Mas as memórias das paisagens da ilha são mais tardias, dos Verões passados na companhia do avô que lhe daria o nome: João Gomes de Abreu. Ele era uma espécie de homem-paisagem. Vegetariano, naturista, reformou-se cedo e dedicou-se à agricultura biológica. Nunca cortava os ramos das árvores: “Temos de fazer uma vénia à natureza”, dizia. Escrevia pequenos poemas e assinava: “Silvestre.” João, o neto, acompanhava, ainda miúdo, o avô naqueles passeios para ver as vistas. Às vezes não percebia o que ficavam ali a fazer, a olhar simplesmente para a paisagem. Chegavam a andar um dia inteiro para ver como estava um único pinheiro. “Vamos parar aqui e respirar fundo”, dizia o avô.

Quando o neto começou a olhar sozinho para o seu entorno, já era adolescente e percorria a ilha em longas caminhadas. Tornou-se uma espécie de explorador da paisagem. E sonhou com um museu onde ela coubesse. Não uma pintura de um vale verdejante, um ensaio sobre as cores que o céu revela no final do dia ou uma fotografia de uma praia idílica. Nesse museu estaria a paisagem toda, o belo e o feio, para que todos a pudessem valorizar e refletir sobre ela. João tinha muitas perguntas, mas uma certeza também: a paisagem é viva e não pode ser congelada.

“Associamos os museus a qualquer coisa que tem de ser conservada e mantida. A paisagem é um elemento vivo, que não se pode parar, não se pode cristalizar. Mesmo que se queira, não é possível. Ela continua em permanente transformação, com ocupação humana ou sem ela”, explica ao P2. “A nossa ideia, ao usar a metáfora do museu, é a de contribuir para paisagens saudáveis.”

O Museu da Paisagem, é um museu digital que quer despertar nos cidadãos um sentido crítico e participativo sobre a paisagem. E as questões surgiram cedo no projeto. Onde começa e acaba a paisagem? Por onde começar neste museu? “A paisagem de repente pareceu-nos infinita, não sabíamos delimitá-la”, conta João Gomes de Abreu, 45 anos, professor na Escola Superior de Comunicação Social, em Lisboa, e coordenador do projeto “Narrativas e experiência do lugar: bases para um Museu da Paisagem”. Na altura de lançar os alicerces do museu, encontraram no rio Tejo um fio condutor. E mais questões. “Mas um rio é muito mais do que uma linha que o constitui. Qual é o limite? A margem?” Decidiram apertar o cerco e focar-se na bacia hidrográfica do Tejo. “O território onde a água que lá cai corre para o Tejo”, sintetiza João.

O projeto avançou juntando os institutos politécnicos de Lisboa, Santarém e Castelo Branco a um financiamento de 150 mil euros de Fundos Europeus Estruturais e de Investimento, do Programa Operacional Competitividade e Internacionalização e do Programa Operacional Regional de Lisboa e da Fundação para a Ciência e Tecnologia.

Primeiro: bater terreno

O Tejo era a linha que unia todos os parceiros. João Gomes de Abreu juntou uma equipa de ex-alunos e bolseiros para criar a metodologia de trabalho no terreno que as equipas das instituições parceiras replicariam. Ao longo de mais de um ano, João e a sua equipa de exploradores da paisagem percorreram o território da bacia hidrográfica do Tejo. Era como se o museu com que tinha sonhado — um Museu da Paisagem — fosse detentor de uma imensa coleção da qual era preciso selecionar alguns elementos para uma exposição. Mas o inventário não estava feito. Para isso, era preciso bater o terreno.

Reuniram cartas militares, mapas, livros. Filtraram e desenharam itinerários. E puseram pés ao caminho. Nas primeiras saídas de campo, chegaram a fazer 20 pontos num só dia. “Era apenas registar para depois escolher”, conta João. O que à partida deveria ser apenas um protótipo de museu começava a desenhar-se no mundo real e a desdobrar-se. “Quisemos ir mais longe. Ter um museu pronto a ser inaugurado, com os mesmos códigos de um museu que existe fisicamente: exposições, serviço educativo, material de apoio, visitas guiadas.” A casa do Museu da Paisagem será um site que reúne itinerários, exposições, material pedagógico. Estão também a trabalhar numa aplicação para telemóvel, que funcionará numa lógica de jogo: os locais mais “frágeis” só serão desbloqueados quando tantos outros (capazes de acomodar mais visitantes) forem explorados.

O trabalho de campo da equipa de exploradores do museu começou no Inverno, mais perto de Lisboa, quando os dias ainda ofereciam menos horas de luz. À medida que os dias cresceram, aventuraram-se para mais longe. Para João Abreu, os primeiros registos eram sempre feitos com a fotografia como mediador, seguidos de notas mentais. A grande preocupação era escolher o tema para determinado local. O que é que distingue este lugar de outro? “Nunca nos interessou os elementos notáveis da paisagem. A paisagem bela, a paisagem-postal, esse nunca foi o critério de seleção”, conta ao P2. Na raiz do Museu da Paisagem está uma linha que une a paisagem a quem a observa: nem a paisagem é miradouro nem quem a vê um espectador.

Claro que há legislação que de algum modo regula os Planos Directores Municipais, a Reserva Ecológica Nacional e a Reserva Agrícola Nacional. Mas a conservação tem de ser diária, vivida e habitada. A paisagem entendida como um valor que pertence a quem a habita”, conclui. Investigador e doutorado em Comunicação nos Museus, a João Abreu interessava-lhe um museu que fugisse das lógicas de conservação e contemplação. Aqui a paisagem é um organismo vivo, em mutação, e a curadoria do museu estende-se a todos que queiram cuidar dela.

Cidadania paisagística

Há muito que Maria Manuel Pedrosa, 50 anos, está atenta às paisagens que a rodeiam. No trabalho que desenvolve na área da comunicação para a sustentabilidade mas também como autora, onde até já viajou por “paisagens cerebrais”: escreveu, com Isabel Minhós Martins, o livro Cá Dentro (2017), um guia para descobrir o cérebro, publicado pela editora Planeta Tangerina. Quando João Abreu a desafiou a juntar-se à equipa do museu, Maria Manuel Pedrosa não descansou enquanto não leu “tudo o que havia para ler” sobre paisagem. “Há tantos conceitos que se calhar cada pessoa tem de encontrar um pouco o seu”, conta ao P2. “A paisagem é um registo subjetivo que se faz de um espaço. Até lá, de certa forma não existe. Ou seja, nós habitamos a paisagem antes de a registarmos, de a apreciarmos. E esquecemo-nos disso.”

Para João Abreu, construir um museu que fosse mais ponto de partida do que chegada era também fundamental para construir cidadania paisagística: se habitamos a paisagem, também a transformamos. “Há uma raiz pessoal nesta relação com o território, com o espaço, com a terra, que sempre me interessou. E este projeto surge num momento de transformação rápida e irrefletida da paisagem”, afirma. A mecanização e industrialização possibilitaram uma mutação veloz das paisagens naturais e urbanas. O que era diverso está cada vez mais uniforme. “A ideia é perceber o que é que se está a perder nessa transformação. Se aquilo que estamos a destruir para construir novo tem ou não valor. A questão não é não transformar, é pensar.”



O fotógrafo Duarte Belo, autor e guardião daquele que é um dos mais vastos espólios fotográficos da paisagem portuguesa, acredita que ainda não chegámos a um ponto de não retorno: “É muito raro ver uma tão grande diversidade num espaço tão pequeno como existe em Portugal”, diz ao P2. “Na Europa, o Gerês é o sítio onde mais chove e a Amareleja é o local com mais horas de sol”, refere João Abreu. “Em cada esquina muda a paisagem.” Duarte Belo, 51 anos, tem, no entanto, seguido o rasto da transformação da paisagem nos inúmeros trabalhos que dedica ao território português.

Na obra Portugal, Luz e Sombra: o País depois de Orlando Ribeiro (2012) revisitou alguns dos locais fotografados por aquele que é o fundador da geografia moderna portuguesa. Orlando Ribeiro fotografou exaustivamente o território a partir de 1937, numa altura em que não havia no país uma única auto-estrada em Portugal. É nessa comparação que a paisagem modificada se revela: uma ponte que não existia, pessoas na paisagem que deixaram de existir. “Mesmo nessas paisagens que estão a perder população há mais marcas de povoamento humano através, por exemplo, das centrais eólicas que põem no topo dos montes ou das serras. Há muitas mais vias rápidas, as barragens também se vão fazendo um pouco por todo o lado”, afirma Duarte Belo.



Se antes era a mão humana, em pequena escala, que desenhava a paisagem, agora esse gesto é mais homogéneo, diz. “Nota-se muito a necessidade de pôr desenho na terra por engenheiros e arquitetos onde antes eram as pessoas que cultivavam as terras. Quando estudava na faculdade do Porto, percorri a pé quase todas as serras do Norte. Era a única forma de acesso ao topo das montanhas, por caminhos de cabras e burros associadas à agricultura. Agora, com as eólicas, as pessoas vão de carro até ao alto das serras e perde parte do encanto. Há uma uniformização maior”, relata.

Também Duarte Belo foi convocado para o Museu da Paisagem. Não para inventariar detalhadamente o território português como fez no livro Portugal Património (2008) — dez volumes e quase dez anos de trabalho a fotografar Portugal — mas para fotografar locais identificados por um grupo de biólogos como sendo habitados por certas aves. Cedeu também parte do seu espólio da bacia do Tejo. E às imagens das aves vão juntar sons desses pássaros numa exposição virtual, uma das que estarão patentes no site do Museu da Paisagem, a casa-mãe do projeto. “Imaginar que há aves que escolhem aqueles lugares... Consoante aquilo que estivermos dispostos a fazer, vemos sempre paisagens diferentes.”

Uma memória emocionada do espaço

Maria Manuel Pedrosa precisa de mexer na paisagem. Andou muito tempo a tentar defini-la, condensá-la numa ideia só. “A paisagem é uma memória emocionada do espaço”, diz-nos sentada numa pedra junto às águas do rio Ocreza, na lagoa a jusante das Portas do Almourão na foz do Cobrão, Beira Baixa. Maria Manuel transformaria, de resto, a ideia de memória emocionada numa fórmula científica.

“E aí sosseguei. Achei que podia ser isso”, diz. Para comprovar a fórmula, é preciso ter em alerta todos os sentidos. Estamos em São Pedro de Vir-a-Corça, em Idanha-a-Nova, numa saída de campo acompanhada pelo P2 em meados de fevereiro. O método de trabalho está oleado: os seis elementos da equipa espalham-se pelo terreno, onde se ergue a ermida de Sa?o Pedro de Vir-a-Corc?a, um templo de estilo roma?nico construi?do entre os finais do se?culo XII e ini?cio do se?culo XIII. Não é a primeira vez que aqui estão. Este é um dos locais incluídos no livro-guia de pontos Ler a Paisagem: Território Tejo, uma das obras em suporte físico que serão publicadas em breve.

Matilde dos Reis, 22 anos, ex-aluna de Design de Comunicação de João Abreu, é uma das autoras dos textos do guia e faz também registos fotográficos. Salta entre blocos de granito, voa de penedo em penedo. Quando desviamos o olhar, já está ao nosso lado. “A minha avó dizia que era uma salta-pocinhas. Quero sentir que estive no lugar por inteiro, mesmo no pouco tempo que lá estive. Não consigo ficar só pelos miradouros”, diz-nos. E desaparece novamente.

Nesta visita, há que recolher alguns elementos em falta para os percursos do museu. Maria Manuel Pedrosa é praticamente a única que não fotografa. Também não lhe pertence o texto deste ponto, está livre. Aproximamo-nos e reparamos que olha para uma pedra coberta de musgo verde. Esfrega a mão, para lá e para cá. Maria Manuel Pedrosa olhou e viu um cavalo. Bate-lhe no dorso e escuta o som baço e oco que de lá sai. Bate outra vez. Escutamos também. Depois deita-se, cruza os braços atrás da cabeça e fecha os olhos. Mané, como é tratada por todos, estava deitada na paisagem.

“O modo deambular é quando uma pessoa se deixa levar pela paisagem”, conta. “Aí é-se passageiro da paisagem, é ela que nos leva.” Esse é um dos traços dominantes do guia de exploração da paisagem O Que Há Neste Lugar?, outro dos suportes físicos deste museu virtual. Pensado para um público mais jovem, quer ajudar a formar exploradores conscientes: “Imaginemos que todas as coisas tinham um fio a liga?-las e e? esse fio que as mante?m em equili?brio (...) Se cortarmos um fio, se dermos um no? ou, simplesmente, se esticarmos o fio, tudo se altera”, lê-se nas primeiras linhas do livro ilustrado por Joana Estrela. “Por isso, e? ta?o importante conhecermos melhor a paisagem, para sabermos cuidar dela.”

Fazer parte da paisagem

Quando João Abreu visitou pela primeira vez São Pedro de Vir-a-Corça, soube que queria falar de um “espírito do lugar”, de uma aura. Encontrou um ponto de paisagem perfeito para sugerir leituras pouco viciadas nos itinerários de visita. “Não é o castelo nem a tão portuguesa aldeia de Monsanto que procuramos, deixemos isso para mais tarde, o que nos traz até aqui é um outro lugar”, escreve no texto dedicado a Vir-a-Corça. “O óbvio aqui seria o castelo de Monsanto e nós viemos para uma floresta de sobreiros com blocos de granito”, explica ao P2. “E de repente aparece uma capela e é um sítio misterioso, conhecido por pouca gente.”

O guia de pontos Ler a Paisagem: Território Tejo reúne 40 locais no mapa da bacia hidrográfica do Tejo, organizados em oito itinerários geográficos, que vão de Salvaterra do Extremo, em Idanha-a-Nova, à Cova do Vapor, na margem sul do Tejo, já bem perto de Lisboa. Mais de 300 páginas onde há troços ferroviários, fábricas, antigos aterros. Campo e cidade, barragens e palácios. “Não é tanto um guia de visita que a pessoa segue cegamente, é quase um companheiro de viagem, em texto e imagem. As pessoas leem e veem, podem entender de outra maneira. O ideal é essa espiral de construção”, explica João Abreu.



Os textos vão para lá de relatos descritivos de quem observa: convocaram memórias, cheiros, trazem gente para dentro. E exploram temas diversos: povoamento, amnésia, refúgio, cooperação, marca. Foi numa das saídas de campo em agosto que uma paisagem lhes atravessou o caminho e chamou por eles. “Passámos numa estrada e vimos umas pedras que não estavam lá antes, com ar de monumento megalítico, com uma placa a dizer: ‘Pedras Instáveis’”, recorda João Abreu. Seguiram viagem, mas voltaram semanas depois. A construção estava maior. “Fomos até lá e percebemos que não era um parque temático ou uma construção com fim comercial. Era um projeto individual.” Uma espécie de Stonehenge da Beira Baixa, erguido nas traseiras de uma bomba de gasolina, a poucos quilómetros de Castelo Branco. “Cada um de nós quer ser único e de algum modo perpetuar-se também na paisagem, através de um muro, de uma casa grande. Ou de um monumento megalítico”, diz.

No guia são disponibilizadas coordenadas de geolocalização para cada um dos locais, mas há também descrições mais pormenorizadas do modo como lá chegar, com referências precisas ao que se vê quando se olha a toda a volta. E não apenas para um ecrã de telemóvel. Como se o avô de João estivesse de mão dada com cada explorador e lhes dissesse: “Vamos para aqui e ver a vista.” Não sabemos se o avô João Gomes de Abreu sonhou algum dia com um museu onde coubesse toda a paisagem. Mas o neto está a construí-lo.


por Vera Moutinho in Público | 7 de abril de 2019
Notícia no âmbito da parceria Centro Nacional de Cultura | Jornal Público 

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