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O "olhar desarmado" dos índios conquista o seu lugar na tela do cinema

O curador da Mostra Ailton Krenak_Miguel Manso Ailton Krenak, Ayani, Alberto Alvares e Zezinho Yube_Miguel Manso A realizadora Ayani Huni Kuin_Miguel Manso


A Mostra de Cinema Indígena, que decorre no Museu Calouste Gulbenkian, traz a Lisboa mais de 30 filmes de realizadores índios brasileiros, alguns dos quais estarão presentes para uma série de debates.

Esta quarta-feira, a seguir ao almoço, quatro índios brasileiros, dois deles vestidos com trajes tradicionais, passeavam pelos jardins da Fundação Gulbenkian, em Lisboa. Três, Zezinho Yube, Ayani Huni Kuin e Alberto Alvares, são realizadores de cinema, e o quarto, Ailton Krenak, é curador da Mostra Ameríndia – Percursos do Cinema Indígena no Brasil, que começou no Museu Calouste Gulbenkian – Coleção Moderna, prolongando-se até dia 17.

Enquanto os índios, cujas penas na cabeça provocam olhares de admiração a quem passa no jardim, se desdobram em entrevistas, os organizadores da mostra anunciam que os bilhetes para a primeira sessão – com o filme Já me transformei em imagem, de Zezinho Yube – já esgotaram.

Daí a pouco sentamo-nos num banco com Ailton Krenak, que foi o organizador da primeira mostra, no Brasil, em 2014, batizada como Aldeia SP. Está muito contente com esta internacionalização do projeto, que teve até agora duas edições no seu país e que traz a Lisboa mais de 30 filmes (3€ por sessão) de realizadores indígenas, assim como uma série de debates (esta quarta-feira e nos dias 15, 16 e 17, com entrada gratuita mediante o levantamento de bilhete uma hora antes da sessão) com a presença dos cineastas convidados (programação).

O cinema, explica o curador, nascido no território do povo Krenak e hoje um dos mais destacados líderes indígenas do Brasil, surgiu entre as comunidades índias como mais uma numa série de tecnologias “que vão alterando as formas de contar uma história”. Delas, “a mais inovadora foi a língua, o português, que virou uma língua de comunicação transcultural, de ligação entre diferentes culturas”.

 

A imagem, e, neste caso, a imagem em movimento, veio “potenciar essa narrativa indígena sobre o mundo”, dando-lhe novos instrumentos para continuar uma tradição tão antiga como a de contar histórias, passando o conhecimento de geração em geração. E permitindo agora que essas histórias se espalhem por um mundo muito maior.

“Se você tiver o vínculo que esses narradores indígenas procuram manter com a sua memória ancestral e com a fonte das suas narrativas, acredito que vai experimentar a facilidade que essas tecnologias proporcionam e conseguir manter algum oxigénio nessa paisagem narrativa, onde o que importa não é a técnica, mas a história que você tem para contar”, diz, no seu tom pausado de falar.

Foi “muito surpreendente” ver a forma como a primeira mostra foi recebida no Brasil. “Os jornais e revistas ligados à cultura fizeram críticas muito interessantes sobre o olhar indígena e surpreenderam-se com aquilo a que chamaram um olhar desarmado.” Na relação com o cinema, “o olho [indígena] ainda não se sente à vontade manipulando o equipamento, é como se usasse uma certa moderação, você não abusa da coisa e tem uma narrativa que é ainda preservada”.

Ailton ficou admirado com essa leitura. “Não tinha organizado a mostra pensando nisso, o que eu queria era uma ampliação dos espaços de expressão da diversidade das culturas indígenas no Brasil, onde sobre essa diversidade há uma espécie de apagamento.” Pela primeira vez, o discurso dos índios através do cinema chegava a uma audiência mais vasta. Para o curador, era uma oportunidade para mostrar ao público das grandes cidades como é que aquele “outro mundo está refletindo sobre o tempo que nós estamos vivendo”.

Muitos dos filmes mostrados no Brasil, e agora também em Lisboa, falam de inquietações que partem “da perceção de que a Terra está sendo mudada, abalada pelo tipo de presença que nós, povos de diferentes lugares do mundo, estamos tendo, pelo dano que a gente está criando para a ecologia do planeta”.

Há um lado perverso nessa troca. A mensagem chega mais longe, sim, mas a “transformação em imagem” de que fala o filme de Zezinho Yube, acarreta o risco de uma “perda de identidade”. “Já não sou mais dono de mim”, explica Ailton.

A isto, soma-se uma certa desilusão com a técnica. “É como se a gente estivesse exasperado com a técnica, ela possibilita essas narrativas plurais, invadindo o imaginário de todo o mundo em qualquer lugar do planeta, mas não conseguiu tirar a gente do lugar de desconforto, de desequilíbrio recorrente que estamos vivendo, com mudança climática, guerra, desgovernança. Não tem nenhum lugar confortável no planeta, está todo o mundo desestabilizado, mas continuam fazendo o elogio da técnica como se ela fosse nos levar em algum lugar.”

Apesar disso, é importante que os filmes existam e que sejam vistos. É isso que permite inscrever a narrativa indígena entre as narrativas que lutam entre si. “Alguém disse que o mundo vive uma guerra de narrativas e que a cada momento há uma que é dominante. Desde o final do século XX que alguns pensadores vêm dizendo que a visão que temos dos factos é o que domina as nossas escolhas, o nosso mundo.”

Nesse cenário em que as narrativas são armas, afirma Ailton, “tem todo o sentido que os povos minoritários como são os indígenas da Amazónia se apropriem deste recurso narrativo da maneira mais competente e que possam incluir a narração da sua história na história do mundo”.

Tal como no passado demarcaram os seus territórios, hoje “estamos buscando marcar um lugar na tela”. Porque ela “é o lugar onde as narrativas predominantes decidem que mundo vai continuar existindo”.


por Alexandra Prado Coelho e Miguel Manso in Público | 13 de março de 2019
Notícia no âmbito da parceria Centro Nacional de Cultura | Jornal Público 

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