"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"

A Vida dos Livros

"Diário – 2000-2015" de João Bigotte Chorão (Imprensa Nacional, 2017)

Um repositório de lembranças, de análises, de encontros, de ensaios sobre a literatura viva, num intimismo pedagógico, que nos leva a acompanhar o escritor agora desaparecido…


A VIDA DOS LIVROS, por Guilherme d'Oliveira Martins

De 11 a 17 de março de 2019

PERSONALIDADE FASCINANTE
Com a partida de João Bigotte Chorão, deixa-nos uma personalidade fascinante na vida cultural e literária portuguesa. Quem teve a felicidade de o conhecer, como eu próprio, sabe bem as suas extraordinárias qualidades. Com uma grande generosidade e uma capacidade única para compreender o essencial de uma obra literária ou de um pensamento, o ensaísta era de uma perspicácia crítica única e de uma verve muito rica, na linha de seus mestres Camilo, Araújo Correia ou Tomaz de Figueiredo. Conheci-o ao longo de várias décadas, sempre com a mesma coerência, sempre com o mesmo denodo no perscrutar do fundo dos estilos ou das personalidades, dos autores e dos protagonistas ou até dos meros figurantes. Quantas vezes, no seu feitio muito próprio e com o seu falar vincadamente beirão, nos puxava de lado, para nos segredar um pormenor picaresco ou revelar um breve segredo literário. Além do mais era um cultor perfeito da língua. No Círculo Eça de Queiroz falámos longamente, envolvendo outros amigos, como Fernando Guedes ou Fernando Garcia – e pudemos preparar e concretizar iniciativas de animação do Chiado, de que tanto gostava, com o Centro Nacional de Cultura. E para aqueles que se dividiam artificialmente entre as tribos de camilianistas e queirosianos – deixava-os sempre desarmados, uma vez que os dois autores do Olimpo da nossa literatura, para um fino conhecedor, não podiam excluir-se mutuamente na rica expressão dos seus livros. De facto Camilo e Eça são diferentes, inesgotáveis, mas indispensáveis de conhecer. A modéstia de Bigotte Chorão não lhe permitia, porém, cometer a imprudência de se reconhecer como imbatível, mas posso asseverar que era verdadeiramente imbatível no conhecimento rigoroso da nossa melhor literatura, sobretudo dos séculos XIX e primeira metade de XX. O certo é que as subtilezas, os detalhes eram-lhe familiares e nos casos de Camilo e Eça, ou de Francisco Costa ou Tomaz de Figueiredo sabia, como ninguém, distinguir a riqueza e a versatilidade. De facto, cada autor tem uma personalidade própria, uma escola inimitável, indefinível nos cânones tradicionais – e João Bigotte Chorão detetava-o como os melhores provadores de vinho fino, caracterizando castas, densidade, sabor, aroma, mas sobretudo a intensidade e a subtileza do verbo. Foi uma das peças importantes nos tempos heroicos da Verbo – e nunca esquecerei essa memória.    

VIDA VIVIDA DESDE AS RAÍZES
João Bigotte Chorão nasceu na Guarda em outubro de 1933 e deixou-nos em Lisboa, aos 85 anos de idade. Notabilizou-se como professor, crítico, diarista e ensaísta, sendo um dos grandes especialistas na obra de Camilo Castelo Branco. Foi diretor literário da Editorial Verbo, ao lado de Fernando Guedes (que também recordo com saudade), onde teve a seu cargo o departamento de Enciclopédias e Dicionários, no qual coordenou a publicação da Enciclopédia Verbo – Edição Século XXI (29 volumes, 1998-2003) e a Logos, Enciclopédia Luso-Brasileira de Filosofia. Licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra, foi, como se disse, além de Camilo, um profundo conhecedor das obras de Almeida Garrett, Eça de Queirós, Carlos Malheiro Dias, Tomaz de Figueiredo ou João de Araújo Correia. Escreveu O Essencial Sobre Camilo e O Essencial Sobre Tomaz de Figueiredo, obras que publicou na Imprensa Nacional, respetivamente em 1996 e 2000. Ainda no âmbito do ensaio, introduziu várias obras da Imprensa Nacional, devendo mencionar-se os prefácios de Contos e Novelas, de João de Araújo Correia, de Nó Cego (nas «Obras Completas de Tomaz de Figueiredo») e de Contos e Novelas, de Domingos Monteiro. Bigotte Chorão começou por publicar os seus escritos em obras coletivas, ou em jornais e revistas, entre as quais a Tempo Presente, a Colóquio/Letras e a Távola Redonda. Do que publicou em livro destaque-se Vintila Horia ou Um Camponês do Danúbio, de 1978, O Escritor na Cidade, de 1986, João Araújo Correia, Um Clássico Contemporâneo, de 1986, Camilo, Esboço de Um Retratado, 1989, Páginas Camilianas e Outros Temas Oitocentistas, de 1990, e O Espírito da Letra, de 2005. Humanista cristão, cultivou o gosto pelas culturas italiana e francesa, dando particular atenção ao memorialismo, à epistolografia e ao diarismo — géneros dos quais foi mestre. Discípulo Noturno, de 1965, e Aventura Interior, de 1969 provam-no. «Escrevo e escreverei nem que seja para preservar a memória dos meus dias e vencer o vazio pela disciplina mental da escrita», disse. Já em 2001 publicou Diário Quase Completo, na Imprensa Nacional — obra com a qual viria a receber o Grande Prémio da Literatura Biográfica da APE. A Imprensa Nacional publicaria aquela que seria a sua derradeira obra: Diário 2000-2015, em fevereiro de 2018. Em Diário 2000-2015, na escrita intimista com que sempre nos habituou, João Bigotte Chorão leva-nos, no intervalo destas datas, em cerca de trezentas páginas, à descoberta do seu universo cultural e a tudo aquilo que o entusiasmava e comovia, deixando para a posteridade um precioso espólio de memórias que por sua própria vontade resistem e vão continuar a resistir ao esquecimento. João Bigotte Chorão era membro da Academia das Ciências de Lisboa e do Instituto Luso-Brasileiro de Filosofia, tendo sido Presidente do Círculo Eça de Queiroz. Era membro do conselho editorial da Imprensa Nacional e também do júri do Prémio IN/Vasco Graça Moura. Leitor criterioso, partilhou com os seus fiéis leitores muitas das suas apreciações e análises. Parafraseando um dos títulos que bastamente conhecia, podemos dizer que o seu exemplo é o de um “Amor de Salvação”. Elas constituirão um elemento fundamental na compreensão da literatura como realidade viva. O nosso agradecimento! 

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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