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A abóbada da Igreja de S. Bento regressa às origens, 87 anos após a demolição

Templo da Alta de Coimbra foi destruído nos primeiros anos do Estado Novo, mas algumas das pedras mais trabalhadas foram empilhadas e encostadas na escola José Falcão durante décadas. Agora estão a ser transportas para o Jardim Botânico da universidade onde serão estudadas.


“A igreja de S. Bento já principiou a ser demolida”, anunciava o jornal conimbricense O Despertar, na primeira página, a 6 de janeiro de 1932, indicando que os trabalhos tinham começado dois dias antes. A publicação fundada em 1917, e que continua a ir para as bancas, dava assim conta de início do desmantelamento de um templo instalado na Alta de Coimbra desde o século XVII, encostada ao Colégio de S. Bento que ainda hoje se mantém de pé.

À data da sua demolição, a igreja dessacralizada desde 1834, aquando a extinção das ordens religiosas, tinha passado quase um século em processo de degradação. No dia seguinte, a extinta Gazeta de Coimbra dava conta disso mesmo: “esse templo, que estava abandonado há muito tempo, vai desaparecer de Coimbra, dando uma melhor exposição do Liceu José Falcão, e talvez à abertura duma estrada que ligue o bairro Sousa Pinto com a estrada da Beira”. O texto prosseguia, informando que o zimbório - “um arrojo de arquitetura” - estava já quase demolido e que o mesmo sucedia com a abóbada, que estava também “a ser apeada”.

Não há um registo preciso do movimento das pedras que sobraram da igreja. A Gazeta de Coimbra estimava na altura: “o material que sai desta igreja deve valer muitas centenas de contos”. O facto é que as peças trabalhadas que revestiam a abóbada da capela-mor ficaram à guarda do Liceu José Falcão, então instalado no Colégio de S. Bento. Com a construção de um novo edifício em Celas para alojar o liceu, a 15 minutos a pé dali, mais de duas centenas pedras fizeram a mesma viagem. O espólio ficou depositado até ao final de 2018 na Escola Secundária José Falcão, empilhado e confinado entre quatro paredes, mas a céu aberto.

Numa operação que junta a Universidade de Coimbra (UC), a Direcção-Geral dos Estabelecimentos Escolares e a Direcção Regional da Cultura do Centro (DRCC), as pedras da abóbada da igreja estão a ser transportadas para o Jardim Botânico da UC, perto do seu local de origem, para serem estudadas.

Lurdes Craveiro acompanhou o processo desde o início. Numa área restrita da mata do Jardim Botânico da UC, para onde a maioria das pedras em calcário de Ançã já foi transportada, esta professora de História da Arte na Faculdade de Letras da UC, em conversa com o PÚBLICO, vai caracterizando as figuras e descodificando o discurso esculpido em cada uma das peças – pelo menos aquelas que já é possível identificar com uma certa margem de certeza. “Pela primeira vez, desde há mais de 80 anos, vemos as pedras que revestiam a abóbada da capela-mor da igreja”, assinala. “Agora é a oportunidade de relançar a discussão sobre a Igreja de S. Bento, com a oportunidade de ver [as pedras] ao vivo e a cores”.

Construção e declínio

A igreja foi consagrada em 1634, o que significa que ficou então em condições de acolher cerimónias. Em termos de organização de espaço, à nave única e transepto juntavam-se seis capelas laterais e uma capela-mor, com uma cúpula sobre o cruzeiro. O templo inseria-se numa “cultura do humanismo renascentista ainda ativa em Coimbra nestes anos tardios das primeiras décadas do século XVII”, explica Lurdes Craveiro. A historiadora fala de um “sentido estético e decorativo de Coimbra” que se afasta da generalidade do país na mesma época, pautando-se por um “decorativismo muito intenso” nas pedras que foram guardadas. Nelas identifica-se a herança de João de Ruão, escultor de origem francesa que morreu em 1580, mas que “treinou aqui uma geração de canteiros e artífices para trabalhar o ornamento”.

O colégio e igreja anexa integravam a Ordem de S. Bento, extinta, tal como as restantes ordens religiosas, em 1834. Pelo meio, em 1772, os frades beneditinos doaram parte dos terrenos da cerca do colégio para a instalação do Jardim Botânico da UC. Depois de albergar um quartel militar, o complexo de S. Bento recebe, em 1870, o liceu. “Há relatos na imprensa de que a igreja serviu como ginásio e salão”, diz Lurdes Craveiro, que acrescenta que os professores “foram tendo alguma atenção à preservação”. No entanto, sem intervenções de conservação, o edifício foi-se deteriorando.

Perdeu-se o rasto a muito do material que estava dentro da igreja. Os paramentos e alfaias litúrgicas foram sendo substituídos e não se sabe o que teria chegado a 1834. “Mas sabemos, e os jornais denunciam, que muita coisa foi roubada e desviada”, recorda a académica. No entanto, nem tudo se perdeu: por exemplo, os lampadários que estão na Sé Nova, também na Alta da cidade, eram de S. Bento.

À chegada da década de 1920, o edifício estava já degradado, apesar de ter sido classificado como imóvel de interesse público em 1928. Mesmo antes da demolição, em 1932, “já faltavam paredes”, descreve a historiadora. Primeiro foi desclassificada, “depois desapareceu, quando apresentava já perigo de queda e depois de muitas polémicas no âmbito da decisão”. Deu lugar a uma rua, a do Arco da Traição, que atualmente passa pelas traseiras do edifício das Matemáticas da Universidade de Coimbra.

Daí que as pedras da abóbada não possam regressar exatamente ao local onde se erguia a igreja, mas sim à mata do Jardim Botânico, cujos gabinetes estão alojados no Colégio de S. Bento. Apesar de o espaço onde foram depositadas as pedras estar vedado a visitantes, quem fizer o caminho pedonal entre a Alta e Baixa da cidade através do Botânico consegue aperceber-se da novidade das pedras à margem de uma parte do percurso. A maioria do conjunto são cartelas, painéis de calcário trabalhados com motivos ornamentais ou figurativos, entre as quais se identificam S. Bento, S. Bernardo ou S. Jerónimo, bem como profetas, padres da igreja, anjos e arcanjos, vai apontando Lurdes Craveiro.

Permanência na José Falcão

O atual edifícío da escola José Falcão foi inaugurado em 1936. Já tem uma certa idade e está a beneficiar de obras de requalificação, que começaram em 2018, pelo ginásio. Mesmo ao lado, está o compartimento a céu aberto onde, durante décadas, esteve depositada a abóbada centenária de S. Bento. As pedras nunca estiveram perdidas. Sabia-se que estavam lá, mas não havia detalhes.

“Não há uma informação precisa sobre a deslocação”, explica o arqueólogo da DRCC Paulo Santos, que acompanhou o processo juntamente com a também arqueóloga da UC Sónia Filipe. “Mas terão acompanhado o movimento da escola”, prossegue. Há ainda nota de que, ao longo do tempo, vários reitores da escola questionaram o espaço que o conjunto ocupava, refere.

Cristina Oliveira também se questionou. Há cerca de dez anos, trabalhava numa unidade da Direcção Regional de Educação do Centro que estava instalada precisamente numa sala da José Falcão com vista para as pedras. “A minha formação de base (História e Arqueologia) chamou-me a atenção”, explica ao PÚBLICO a atual Delegada Regional de Educação do Centro. “Estava totalmente coberto com terra, com erva, quase nem era visível”, descreve. No entanto, “na altura, não houve oportunidade de fazer o levantamento”, refere, adiantando que as obras no ginásio da escola foram o pretexto para fazer o transporte, incluído no caderno de encargos da empreitada.

O destino encontrado foi o Jardim Botânico da Universidade de Coimbra (JBUC). O diretor, António Gouveia, conta que o processo começou há cerca de um ano, com o JBUC a ser contactado para receber as pedras, “visto que havia esta ligação histórica entre o jardim e estas peças”. “Era uma espécie de regresso à Alta de um património que tinha saído daqui”, acrescenta.

A demolição da igreja não é caso único e antecedeu nalguns anos a destruição na Alta de Coimbra. Nos anos 40 e seguintes, para erigir uma cidade universitária que estivesse de acordo com a estética e com o projeto de poder do Estado Novo, viriam abaixo edifícios centenários como o Colégio dos Loios, o Colégio dos Militares ou a Igreja de S. Pedro, além de uma rede urbana que também desapareceu.

Não sobreviveram muitos elementos que permitam recuperar uma ideia de conjunto da igreja de S. Bento. O arquiteto alemão Albrecht Haupt, que passou por Coimbra no século XIX, fez um conjunto de desenhos do edifício, que se encontram publicado no livro A Arquitetura do Renascimento em Portugal. Das poucas fotografias que chegaram até hoje, algumas foram incluídas no Inventário Artístico de Portugal. Uma mostra a igreja já a ser desmantelada e outra foca-se na abóboda da capela-mor, o que permite reconstituir a posição relativa de cada cartela. No entanto, em relação à estrutura, faltava informação que permitisse reconstituir o todo.

Foi deste ponto que o arquiteto Fábio Castro partiu para fazer da reconstituição da extinta igreja o objeto da sua dissertação de mestrado em 2012. “A reconstituição resultou do cruzamento de vários elementos que consegui reunir”, refere. Para além das fotografias e ilustrações, Fábio Castro partiu também das proporções e dimensões do Colégio de S. Bento para chegar a uma conclusão aproximada. O resultado foram plantas dos pavimentos e alçados, bem como uma maqueta em escala 1/200 que oferece uma ideia de conjunto.

Fazer o levantamento

Quando o transporte das pedras estiver finalizado, o que, de acordo com o diretor dos Serviços e Bens Culturais da DRCC, Antero de Carvalho, deverá acontecer na primeira metade deste ano, faltará estudar o espólio e perceber ao certo o que ali está. Ainda não é possível identificar todas as pedras, sendo que, para além das cartelas da abóbada, há também elementos do arco triunfal do monumento. O responsável sublinha que, no novo local, as pedras estão em melhores condições de conservação, embora assuma que também não são as ideais.

Não está ainda definido um projeto para expor o conjunto. Para já, o destino do que resta da Igreja de S. Bento é o estudo, ficando para isso dispostas no JBUC. “Quando as pedras estiverem cá todas, é uma questão de perceber como elas jogam entre si e perceber o discurso que está inscrito neste programa”, afirma Lurdes Craveiro, referindo que já tem um aluno a trabalhar no terreno cujo objeto de mestrado é o estudo das pedras.

“Para já, urgente é saber exatamente o que aquilo é, o que representa. Depois é preciso pensar num projeto de valorização daquele espólio”, afirma António Gouveia. Por agora, vão ficar naquele espaço da mata, perto do local onde estiveram quase 300 anos.


por Camilo Soldado eAdriano Miranda (fotografia) in Público | 4 de fevereiro de 2019
Notícia no âmbito da parceria Centro Nacional de Cultura | Jornal Público 

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