"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"

Obras de referência da cultura portuguesa

PRAÇA DO COMÉRCIO, em Lisboa

Análise de Maria Calado
Tradução de Alexandra Leitão

A Praça do Comércio em Lisboa é uma obra arquitetónica e urbanística do século XVIII, realizada no contexto da reconstrução da cidade depois do terramoto de 1755 e projetada à luz dos modelos culturais e artísticos do Iluminismo. Está implantada no sítio do antigo Terreiro do Paço. Pela sua monumentalidade, escala e coerência, é um dos exemplos de referência no panorama da cultura arquitetónica da época. Aqui se conjugam as artes da arquitetura, do urbanismo e da escultura, numa perfeita harmonia, contribuindo para a formação de um cenário de rara beleza e funcionalidade.

Aberta para a frente ribeirinha do estuário do Tejo, a Praça insere-se na Baixa Pombalina, um conjunto de grande valor cultural, em que vários dos seus elementos se encontram formalmente classificados como Monumentos Nacionais e Imóveis de Interesse Público. Para além da sua importância histórica e representatividade artística, é um espaço urbano estruturante da própria cidade e também um lugar de memória de muitas ocorrências da vida política, social e cultural do país, que tiveram como pano de fundo este espaço público emblemático secular.

A origem de um espaço aberto, com a fisionomia de largo, remonta ao início século XVI, quando o rei D. Manuel I tomou a decisão de mudar a residência permanente nos Paços do Castelo por um novo Palácio Real, junto ao rio e próximo do porto, dos equipamentos ligados à administração da economia ultramarina e do crescente dinamismo do comércio nas ruas da Baixa. Assim, o sítio tornou-se, simultaneamente, um local de cesso ao Palácio (Terreiro do Paço) e aos edifícios da Casa da Índia, do Arsenal e da Alfândega Nova, um cais de embarque e ligação ao exterior e uma entrada no centro da cidade capital do reino. Apesar da sua configuração irregular, que lhe dava o carácter urbanístico de simples largo, o Terreiro do Paço ficou sempre associado a um certo cosmopolitismo e adquiriu uma imagem de espaço de representação do poder e de ligação entre a capital, o país e o mundo.

No âmbito do processo de reconstrução de Lisboa, liderado pelo engenheiro militar Manuel da Maia, o plano aprovado para a Baixa, em 1756, da autoria de Eugénio dos Santos, Carlos Mardel e Elias Sebastião Pop, organizou esta parte da cidade com base numa malha regular de traçado ortogonal, delimitada por duas grandes praças sobrepostas aos anteriores largos do Rossio e do antigo Terreiro do Paço, respetivamente a norte e a sul. A primeira estabelece a ligação com o interior e a segunda abre-se para o exterior, através da relação com o rio. Em 1759, por determinação do próprio Marquês de Pombal, na sua qualidade de ministro responsável pela aprovação dos planos e das obras, esta última passa a designar-se Praça do Comércio, em homenagem à burguesia mercantil e à própria Junta do Comércio, organismo que suportou financeiramente os custos da reconstrução. Os novos edifícios da Praça passaram a acolher funções administrativas dos organismos públicos.

A nova Praça do Comércio tem forma quadrangular e é delimitada em três lados por fachadas uniformes e aberta na frente sobre a água. O desenho dos edifícios e respetivas fachadas foi concebido pelo arquiteto Carlos Mardel, com base em princípios de uniformidade e racionalidade. A sequência de grandes arcadas sobre a rua no piso térreo, bem como a composição dos dois pisos superiores, traduzem bem uma harmonia estética baseada na simplicidade e na repetição rítmica. Apesar da sintonia com as propostas artísticas internacionais de meados do século XVIII, sintonizadas tanto com a monumentalidade do Barroco final como com a racionalidade do Neoclassicismo emergente, a memória das pré-existências arquitetónicas foi respeitada, na medida em que os grandes torreões se inspiram diretamente no anterior torreão maneirista do palácio real filipino.

Nesta ambiência de uniformidade, serenidade e equilíbrio, destacam-se, pelo efeito plástico, o monumento escultórico representativo do poder real iluminista e o arco central da fachada norte da Praça que se ergue sobre o enfiamento da Rua Augusta. A escultura, localiza-se no centro da Praça. Sobre um grande pedestal em pedra, ergue-se a estátua equestre do rei D. José I, em bronze, a marcar a monumentalidade do espaço e a ordenar todo conjunto construído. O monumento, da autoria do escultor Machado de Castro, foi inaugurado em 1775, num cerimonial que também assinalou a conclusão de uma parte significativa dos edifícios da Baixa.

O arco só foi concluído em 1873, com projeto arquitetónico de Veríssimo José da Costa e decoração escultórica com figuras alegóricas e históricas de Calmels e Victor Bastos. Pela sua forma e composição, inspira-se nos modelos do Ecletismo, em particular nos grandes arcos de triunfo da cidade de Paris.

Na sua existência de dois séculos e meio, a Praça do Comércio ajustou-se a novas funcionalidades, reforçando a imagem de grande Praça histórica setecentista.

 



PRAÇA DO COMÉRCIO, Lisbon

Praça do Comércio in Lisbon (often known as Black Horse Square) is an 18th century architectural and town-planning project carried out during the rebuilding of Lisbon after the 1755 earthquake and designed in the light of the cultural and artistic models of the Enlightenment. It is located on the site of the former Terreiro do Paço (Palace Square). Its monumentality, scale and rationality make it one of the prime examples of the architectural culture of the period. Architecture, town-planning and sculpture are harmoniously combined, contributing to a scenario that is both beautiful and functional.

Facing the Tagus estuary riverfront the square is part of the Pombaline Downtown or Baixa, an area of great cultural value in which several buildings are classified as National Monuments and Buildings of Public Interest. In addition to its historic importance and artistic representativeness, it is a structural element of the city’s urban space and a place of memory of many events in the country’s political, social and cultural life that occurred in or around this centuries-old emblematic Square.

Its origins as a square can be found in the 16th century when King D. Manuel I decided to move his permanent residence within the Castle walls to a new royal palace, Palácio da Ribeira. Located on the river and near the port, it was close to the administrative departments that regulated the overseas economy and oversaw the growing dynamism of trade in the streets of the Baixa. So, the square was at the same time a place of access to the Palace (Terreiro do Paço) and to the buildings of Casa da India, the Arsenal and the Alfândega Nova or New Customs House, but also a dock, the route out of the country and a gateway to this city, the capital of the kingdom. In spite of its irregular shape, making it resemble no more than a large empty space, Terreiro do Paço was always associated with a certain cosmopolitanism, acquiring the image of a showcase of power connecting the capital, the country and the world.

Manuel da Maia, a military engineer, was in charge of the overall rebuilding works. In the plan by Eugénio dos Santos, Carlos Mardel and Elias Sebastião Pop, which was approved for the Baixa in 1756, this part of town was to have an orthogonal grid layout, limited to north and south by two large squares superimposed on the former Rossio Square and Terreiro do Paço. The Rossio leads inland and Terreiro do Paço opens outwards via the river. In 1759, as minister in charge of approving all plans and works, the Marquis of Pombal determined that the square should take the name Praça do Comércio (Commerce Square), paying tribute to the mercantile bourgeoisie and the Junta de Comércio, the Board of  Commerce that paid the rebuilding. The new buildings around the Square housed the administrative bureaus of various public institutions.

The new Praça do Comércio is quadrangular and on three sides has uniform façades, whilst the fourth side faces the river. The architect Carlos Mardel drew the plans for the buildings and their façades based on principles of uniformity and rationality. The run of great arcades at street level and the composition of the two upper levels convey an aesthetic harmony based on simplicity and rhythmic repetition. Despite its conformity with 18th century international artistic proposals in keeping both with late Baroque monumentality and with the rationality of emerging neo-classicism, traces of the pre-existing architecture were respected: the large towers, in fact, were directly inspired by the monumental Mannerist tower of the royal palace, built by the kings of Spain.

In this atmosphere of uniformity, serenity and balance, certain features stand out: the monumental sculpture representing the royal power of the Enlightenment and the central arch on the north side of the square leading to Rua Augusta. The sculpture is set into the middle of the square. On a great stone pedestal a bronze equestrian statue of King D. José I marks the monumentality of the space and provides the balance for the whole. The statue is by the sculptor Machado de Castro and was unveiled in 1775 at a ceremony that also marked the completion of a great part of the Baixa rebuilding works.

The arch itself was only completed in 1873. It was designed by the architect Veríssimo José da Costa and decorated with allegorical and historical figures by Célestin Anatole Calmels and Victor Bastos. Its form and composition show that it was inspired by models of eclecticism, in particular by the large triumphal arches of the city of Paris.

During the 250 years of its existence Praça do Comercio has adapted to new functions, emphasising its image as a great 18th century historical square.



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