"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"

Teatro

Diga 33. Poesia no Teatro. Às terças terças-feiras de cada mês

Conjunto de colóquios animado por um sempre diverso coro de corifeus, com o Henrique Fialho a contramestre.

17 Jul   |  21h30

Teatro da Rainha
Rua Vitorino Fróis - junto à Biblioteca Municipal, 2504-911 Caldas da Rainha
Preço
Entrada livre

O teatro será anterior à poesia se dissermos que no princípio era o gesto — e o gesto será anterior à imagem, a consciência dela, e certamente ao hieróglifo. O gesto surge com o corpo e uma linguagem é-lhe posterior. Isto se ignorarmos a dimensão verbal do gesto. Mas sem o verbo o gesto é uma sinalética. Só a dança e o teatro contemporâneos — e a poesia, desde sempre dada à desregra —, menos vidrados em contrariar a gravidade com pontas segundo uma codificação própria, nos libertam para ler o que nas cenas se move com olhos reinventados pelo próprio imprevisto da escrita, um vocabulário que nos realfabetiza pois nos apanha descalços, sem saber ler mesmo sabendo — não falo de aldrabices, falo de invenção. A poesia e o teatro vêm do mesmo ritual. A festa que gera o teatro tinha cânticos, ditirambo (odes), coros e dança. Dança mais poesia coral igual a representação, de uns para os outros — não existiam espectadores, iam arrastados na torrente, por certo —, a celebração é a de um em comum fora das normas. O teatro foi sendo esse contentor que junta “disciplinas” em busca de uma estrutura sempre renovada e sempre investida na génese, esse modo grego de ser, mas no princípio era festa. A festa é anterior a qualquer codificação estrita, liberdade única tribal, colectiva, sem formatação disciplinar. A poesia é teatro, o teatro é poesia. Desligá-los teve a ver com a estruturação da sociedade em classes, com papéis sociais, funções, separação entre simples e intelectuais. 

Ao convidar o Henrique a elaborar este programa quisemos juntar tudo: a necessidade de libertar os ouvidos do excesso de imagens que os olhos lhes impuseram, a possibilidade de viajar no tempo até um antes do livro num momento em que o livro está em causa, o privilégio de conhecer o que se escreve hoje, entre nós, e como se escreve e publica, o prazer a partilhar de falar de ler poesia e da necessidade de encontrar espaços de um comum para o fazer, quisemos portanto realizar nestas terças terças-feiras propostas uma viagem às paisagens do impossível, pois será apenas nessas que a verdadeira celebração da nossa vocação como humanos — sapiens sapiens sapiens (e a importância de que isso se reveste com este ataque do pré-neandertal trumpismo)— poderá acontecer. Acreditamos, porque somos fazedores de imagens imprevistas por destino de opção — sonoras, auditivas e tácteis — que será por aqui que poderemos encontrar uma sociedade radicalmente nova. 

A poesia é uma inspiração para o teatro, uma libertação do teatro, particularmente do teatro das entoações havidas. A convenção quando se torna polícia reprime e mata, quando é liberdade de um comum aceite pelo comum liberta.

Hoje a “agenda” é esta, a nossa esperança é parir nestas terças terças-feiras de cada mês uma espécie de dias do avesso — mesmo sublime — entre a beleza, a leveza e o baixo carnal, o gozo de viver, já que o corpo nunca se esquece em quem habita e quando é o caso está lá para dizer que existe. Dias de concentração e festa sem festival, de teatro sem espectáculo. Nas costas do mundo que aí está para conspirar de modo cúmplice, tecer cumplicidades. Em rede, como na guerrilha. 

E como dizia um mestre, dias de momentos de um silêncio partilhado intimamente em assembleia, politicamente.
fernando mora ramos

17 de julho às 21h30 
Na Sala Estúdio do Teatro da Rainha
Sessão de homenagem a Rui Costa, com a presença de 
André Corrêa de Sá, Margarida Vale de Gato e Cláudia Souto

Rui Costa (Porto, 1972-2012) estudou Direito em Coimbra. Foi advogado em Lisboa e em Londres, tendo concluído mestrado em Leeds. Preparava doutoramento em Saúde Pública no Rio de Janeiro quando desapareceu precocemente. O seu corpo foi encontrado na foz do Douro. Publicou poesia, tendo vencido a primeira edição do Prémio de Poesia Daniel Faria com o livro de estreia “A Nuvem Prateada das Pessoas Graves”. Além de poesia, publicou o romance “A Resistência dos Materiais”, uma peça de teatro escrita com Margarida Vale de Gato, e pequenas histórias, tendo organizado com André Sebastião a “Primeira Antologia de Micro-Ficção Portuguesa” (2008). Em 2017, a Assírio & Alvim recuperou parte da sua poesia na antologia póstuma “Mike Tyson Para Principiantes”.

Próxima sessão: 18 de Setembro: Helena Vieira (editora na Mariposa Azual, organizadora da antologia “Voo Rasante”)

Entrada livre sujeita a lotação da sala
Informações: 262 823 302 | 966 186 871 | comunicacao@teatro-da-rainha.com
www.teatro-da-rainha.com
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