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No tempo em que a igreja era moderna e queria fazer parte da cidade

Um convento dominicano em Lisboa onde se pode ver uma exposição de arte e arquitetura. Um convento que é, ao mesmo tempo, uma peça dessa exposição que junta igreja e modernidade. Nos anos 50, como hoje. Até 10 de junho.

Igreja do Convento de São Domingos, casa dos dominicanos em Lisboa - Rui Gaudêncio Convento de São Domingo: nesta igreja os padres pregadores que vivem no Convento (cerca de 20) reúnem-se para rezar (e cantar) todos os dias pelas 8h - Rui Gaudêncio Convento de São Domingos - Rui Gaudêncio Na Igreja do Convemto de São Domingos a luz assume um lugar especial e vem das janelas viradas para o claustro ou da claraboia sobre o altar - Rui Gaudêncio Convento de São Domingos - Rui Gaudêncio Claustro do Convento de São Domingos - Rui Gaudêncio Claustro do Convento de São Domingos - Rui Gaudêncio


A imagem é banal, mas não há como escapar-lhe quando a manhã é de sol e estamos voltados para o altar da igreja do Convento de São Domingos, no Alto dos Moinhos, em Lisboa: a luz entra pela claraboia e escorre pela parede de betão ligeiramente inclinada, como se tivesse planeado chegar depressa ao chão.

A igreja parece uma caixa retangular e nela os elementos decorativos estão reduzidos ao mínimo. Há apenas três ícones discretos, um deles no sacrário, e uma grande janela que se abre sobre o claustro interior com o seu cedro esguio e as oliveiras ainda pequenas.

“Aqui o espaço é muito simples mas acolhedor, para que as pessoas se possam concentrar no que é importante. Não há grandes distrações”, diz o padre José Manuel Fernandes, dominicano e pároco de São Domingos. Vive neste convento onde moram cerca de 20 frades que todas as manhãs se reúnem na igreja pelas oito, para rezar e cantar. “A igreja está aberta à comunidade [todos os dias há missa ao final da tarde, à exceção do domingo, com celebração às 12h], mas nunca a essa hora, a não ser na semana santa.”

Quem percorre o corredor central, entre os bancos de madeira, pode não se aperceber, mas o chão é ligeiramente inclinado. “É uma pendente de uma enorme delicadeza que descai até ao altar, onde tudo se passa”, diz João Luís Marques, o arquiteto que divide com outros três - João Alves da Cunha, Paulo Miranda e Pedro Castro Cruz - o comissariado da exposição Dominicanos. Arte e Arquitetura Portuguesa. Diálogos com a Modernidade, que até 10 de Junho celebra a relação que ao longo da segunda metade do século XX a ordem dos pregadores manteve com a arquitetura moderna em Portugal, isto sem esquecer o que se passa noutros países.

No início da relação – e do debate – entre a modernidade e a igreja a questão centra-se nas formas, nos materiais e nas possibilidades das novas técnicas de construção, numa Europa que se está a reerguer depois da Segunda Guerra Mundial, mas depois aprofunda-se, explica o arquiteto João Alves da Cunha.

“Quem se encarrega da reconstrução começa a perguntar-se ‘o que interessa a forma se lá dentro nada muda?’. E na tentativa de responder a esta e a outras perguntas, percebe que o que quer realmente é mudar a sociedade e não apenas a arquitetura e a arte que vão servir para fazer novas igrejas e outros espaços religiosos. E essa mudança tem, naturalmente, um lado político fortíssimo, de democratização, de fazer com que a igreja desça da hierarquia e se misture na vida das cidades, das pessoas.”

E isto é verdade tanto no contexto internacional como no português, acrescenta João Luís Marques, falando de uma “elite cultural e governativa” a que não eram estranhos os debates em que a igreja se envolvia nem o papel que continuava a reclamar: “[O primeiro-ministro social-democrata Francisco] Sá Carneiro, que esteve ligado ao seminário do Cristo Rei, no Porto, faz parte dessa elite que segue um modelo católico carregado de preocupações sociais.”

Este seminário dominicano é um dos quatro projetos em Lisboa, Porto, Fátima e Ourém de que a exposição se ocupa. Duas pequenas salas mostram, através de fotografias e maquetes, esculturas e paramentos, sacrários e documentos provenientes de várias instituições, da câmara do Porto ao Centro de Estudos de Arquitetura e Urbanismo da Faculdade de Arquitetura da mesma cidade, passando pelo Instituto Universitário de Lisboa, o Mosteiro da Batalha, a ordem dominicana e várias paróquias, agora reunidos pela primeira vez, como o movimento de modernização da igreja teve vários reflexos, do Concílio do Vaticano II (1962-65) às torres sineiras com o betão à vista que iam surgindo um pouco por toda a Europa.

Um dos projetos em foco é o do próprio Convento de São Domingos, inaugurado em 1994 e ainda por acabar (falta-lhe a biblioteca e o centro cultural), que se pode percorrer nas visitas guiadas agendadas para 26 de maio e 9 de junho.

“Onde vamos rezar agora?”

Na primeira das salas, que funciona como introdução, aborda-se o contexto internacional e a distribuição dos dominicanos no território. É lá que se podem encontrar as referências a uma das mais importantes publicações associadas ao movimento de renovação da igreja.

L’Art Sacré, revista de arte, arquitetura e espiritualidade que foi publicada entre 1935 e 1969, acompanha toda a modernidade e transforma-se num importante instrumento de reflexão e debate, defendem os comissários. Entregue aos dominicanos apenas dois anos depois da sua criação – a ordem dos pregadores tinha já experiência editorial e uma prática centenária na produção de conhecimento – encontra num dos seus diretores, o Padre Marie-Alain Couturier (1897-1954), o pivô perfeito para fazer a ponte entre a igreja e alguns dos mais importantes e radicais artistas e arquitetos do seu tempo.

Exemplo maior da importância de Couturier para a renovação da arte e arquitetura religiosas é a relação deste frade que era também pintor com Le Corbusier (1887-1965), o arquiteto suíço que foi o grande impulsionador do Movimento Moderno. Uma relação que deu origem a duas obras paradigmáticas: a Capela de Notre Dame du Haut (Ronchamp, 1955), que não sendo dominicana é apadrinhada por uma comunidade de freiras da ordem dos pregadores, e o convento de Sainte-Marie de La Tourette (Lyon, 1960), ambos verdadeiros locais de peregrinação para arquitetos e estudantes de arquitetura de todo o mundo.

Couturier promoveu ainda duas igrejas emblemáticas - a de Nossa Senhora de Todas as Graças (Plateau d’Assy, 1950), e a do Sagrado Coração (Audincourt, 1951) - e ainda a Capela de Nossa Senhora do Rosário, em Vence (1951). Nestes três edifícios não é a arquitetura o mais distintivo, mas os artistas convidados a neles intervir:  Henri Matisse, Fernand Léger, Marc Chagall, Georges Rouault, Georges Braque ou Pierre Bonnard.

Na de Assy trabalharam Henri Matisse, Fernand Léger, Marc Chagall, Georges Rouault, Georges Braque ou Pierre Bonnard; na de Vence Matisse reina isolado; e na de Audincourt Léger assina vitrais e uma tapeçaria, partilhando o espaço com Jean Bazaine e Jean Le Moal, pintores da chamada Escola de Paris.

“Assy é um verdadeiro catálogo de arte moderna, uma espécie de manifesto”, diz Alves da Cunha. “Há pintura, escultura, vitrais, tapeçarias, mosaicos, peças em cerâmica… O Rouault assina vitrais, Chagall faz o batistério, que é lindíssimo, o Braque tem um baixo relevo em bronze, Matisse cria em barro um São Domingos…”

Muitos destes artistas não têm qualquer relação com a igreja, tal como Le Corbusier, um ateu confesso, o que vale ao diretor de L’Art Sacré várias querelas públicas.

“Quisemos trazer para esta exposição a referência à L’Art Sacré porque ela é absolutamente fundamental neste período em que a modernidade reclama o seu lugar na história e na vida da igreja”, diz João Luís Marques. “A revista vai mostrando como está a evoluir a discussão.”

E a discussão, que começara com um movimento que no final do século XIX procura trazer de volta a arte contemporânea aos locais de culto, e se intensifica no pós-Segunda Guerra, faz-se sobretudo entre aqueles que veem a modernidade como uma ameaça aos valores tradicionais da igreja e os que a veem como um valor em si mesmo. “No pós-Guerra discute-se que conventos e igrejas se querem para as cidades em reconstrução e procura-se responder à pergunta: ‘Onde é que vamos rezar agora, depois de tudo o que aconteceu?’ L’Art Sacré vem mostrar que a igreja não tem de lutar contra a modernidade.”

Couturier, teórico da arte que viajara para os Estados Unidos durante a Guerra e que lá fizera amigos entre a elite cultural ali exilada, defendia mesmo que a modernidade fazia parte da identidade da própria igreja. “É por isso que para ele é evidente que Chagall e Matisse têm de trabalhar nas novas igrejas. E até Picasso”, acrescenta Alves da Cunha. O mestre espanhol foi, no entanto, o único que o diretor de L’Art Sacré não conseguiu “evangelizar”. “Picasso é um dos amigos de Couturier, mas não participa neste movimento de renovação que depois se reforça e se aprofunda com o concílio do Vaticano II, que vem para pôr em marcha uma mudança que não é só religiosa, é também cultural.”

O regresso, 100 anos depois

Dominicanos. Arte e Arquitetura Portuguesa. Diálogos com a Modernidade vem mostrar que, seguindo o exemplo francês,  também em Portugal a ordem de São Domingos deu origem a algumas das mais importantes obras da arquitetura e arte religiosas modernas.

“Os dominicanos não estavam a contribuir para a renovação da arte e arquitetura religiosas apenas pela novidade das formas. De facto, não era só uma questão de forma e de possibilidades técnicas – não era só o uso do betão aparente, das varandas abertas e dos quartos estreitos ‘máquinas funcionais’ -, havia algo mais a revelar”, escrevem os comissários num texto breve em que apresentam o projeto da atual exposição, publicado no volume Os Dominicanos em Portugal (1216-2016), uma edição do Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa, pensada para coincidir com os 800 anos da chegada destes frades ao país.

Expulsos pelo Marquês de Pombal em 1834, tal como as restantes ordens religiosas, começaram a regressar quase 100 anos depois, estabelecendo a Província Portuguesa da Ordem dos Pregadores em 1962.

Nesse regresso, diz João Luís Marques, foi preciso encontrar-lhes casas, conventos, colégios e seminários por todo o território, tanto no campo como na cidade. Nalguns casos ocuparam edifícios pré-existentes – “chegaram a ter um convento em Lisboa em três ou quatro apartamentos” -, noutros fizeram encomendas.

Antes mesmo da criação da província, começou a construção do Convento do Cristo Rei, no Porto (arquitetos Eduardo Martins e Manuel Passos Júnior, 1950-54), um edifício de traça algo conservadora que deveria fazer parte de um moderno centro cívico, cujo desenho urbano pertencia ao arquiteto Fernando Távora, ainda estagiário na câmara do Porto.

“Há um desencontro óbvio entre aquilo que Távora previra para a igreja e casa eclesiástica que ficaria no coração da praça moderna que desenhou e aquilo que foi construído”, diz Alves da Cunha. Em volta, mostra o outro comissário, estão edifícios de habitação plurifamiliar, assentes em pilotis e com piso térreo comercial. Um “confronto entre duas arquiteturas contemporâneas: uma revivalista e outra inequivocamente moderna”, lê-se num dos textos de parede. “O que o Fernando Távora imaginou para o Cristo Rei não tinha certamente nada a ver com o que foi construído. Basta olhar para o bloco de apartamentos mesmo ao lado, e para o facto de o estudo que faz para a urbanização não contemplar uma igreja com a entrada virada para a praça.” A igreja é tratada por Távora como qualquer outro edifício, sem ocupar o lugar de destaque que a hierarquia tradicional lhe atribuía. “Esta é uma igreja que quer participar na cidade, como os escritórios e os espaços comerciais. Não é uma igreja que olha para as pessoas de cima, inacessível – é uma igreja que está ao nível da rua”, acrescenta Alves da Cunha.

O que foi construído viria a ser objeto de remodelação já depois do Concílio do Vaticano II e dos seus esforços de renovação e aproximação da igreja aos crentes.

A mudança como única constante

Mais tarde, e já no centro do país, a ordem lança dois novos projetos que confia a jovens arquitetos do Movimento de Renovação da Arte Religiosa (MRAR), Luiz Cunha (igreja do Convento da Nossa Senhora do Rosário, Fátima, 1962-65) e Diogo Lino Pimentel (capela do Seminário do Olival, Ourém, 1964-67). Edifícios que refletem a modernidade também na encomenda artística, com a escultura de Maria Luísa Marinho e José Grade, a pintura do suíço Ferdinand Gehr e a paramentaria de Isolda Norton, inspirada nos figurinos que José Sobral de Almada Negreiros desenhara para o Auto da Alma.

O MRAR, nascido da vontade de um grupo de arquitetos, artistas plásticos e historiadores de que faziam parte Nuno Teotónio Pereira, Nuno Portas, Manuel Cargaleiro, José Escada ou Madalena Cabral, foi essencial ao surgimento de espaços religiosos que, à semelhança destes e um pouco por todo o país, se opunham com grande qualidade aos modelos tradicionalistas.

“A única constante da igreja é a mudança. A sua tradição sempre foi no sentido de acompanhar a arte e a arquitetura do seu tempo – se foi assim no gótico ou no barroco, por que razão seria diferente no século XX?”, questiona João Alves da Cunha, arquiteto que traça o percurso deste movimento na sua tese de doutoramento. “O MRAR é fundamental para trazer para Portugal esta modernidade na igreja, adaptando-a.” E o que dela resulta, a avaliar pelos projetos da exposição, são espaços depurados, cuidadosamente iluminados, em que o altar ganha centralidade e quase tudo parece ficar mais perto da assembleia: a escultura, a pintura, o próprio padre durante a missa.

E para ilustrar algumas das inovações introduzidas na segunda metade do século XX a partir destes projetos, os dois arquitetos-comissários falam do facto de a igreja de Fátima de Luiz Cunha ter sido a primeira a usar betão aparente no país e de nela haver uma “fantástica pintura” do suíço Ferdinand Gehr e um sacrário em esmalte que o próprio arquiteto desenhou – uma “caixa dourada” que, aberta, revela uma Última Ceia de tons garridos.  Falam de como a capela do Seminário do Olival procurou marcar o encontro entre as linguagens tradicional e moderna dentro do espírito do levantamento à arquitetura popular portuguesa da década de 1950 e de como nela o arquiteto Diogo Lino Pimentel conseguiu, sem cair no erro de copiar formas, recuperar alguns elementos do passado (a cobertura de duas águas com telha cerâmica, por exemplo) e combiná-los com novos (a torre sineira com o betão à vista).

A exposição fica completa com os painéis e maquete do edifício que se encontra mais a sul - o Convento de São Domingos (1989), no Alto dos Moinhos, projetado por dois jovens arquitetos da Escola do Porto, José Fernando Gonçalves e Paulo Providência.

Neste conjunto, hoje formado pela igreja e pelas residências dos frades, há uma intenção clara de abertura ao mundo, diz quem lá vive. Já no próximo sábado, 12 de maio, às 16h, estará aberto a todos os que quiserem assistir a uma conferência em torno do tema da exposição. Talvez também nesse dia se possa ver a tal parede por onde a luz escorrega. 


por Lucinda Canelas in Público | 7 de maio de 2018
Notícia no âmbito da parceria Centro Nacional de Cultura | Jornal Público

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