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Afonso Cruz: O passeio não tem fim

Mais de 200 textos, autobiografia de um viajante que vê a viagem como uma espiral de retorno obrigatório. Afonso Cruz é um passeante a escrever sobre a matéria de que é feito o escritor e a literatura que produz: Jalan Jalan, espécie de enciclopédia, também livro de memórias.

Afonso Cruz, 46 anos, natural da Figueira da Foz, ilustrador, músico, escritor, filho e neto de fotógrafos


Pouco depois do 11 de setembro de 2001, Afonso Cruz estava no Mosteiro de Mar Musa, construção com mais de mil anos numa zona escarpada do deserto da Síria, quando, do meio de uma tempestade de frio e chuva, surgiram dois europeus que estavam a dar a volta ao mundo em bicicleta. Abrigaram-se naquele lugar despojado de qualquer conforto e, a meio da conversa, um deles disse que “preferia não ter a experiência pela qual passava, mas apenas as conclusões”. O episódio vem descrito num dos textos – ensaios, crónicas, parábolas, aforismos, histórias, muitas em tom poético, intercaladas com fotografias — que integram Jalan Jalan, o mais recente livro do escritor português, volume que pode ser lido como autobiografia ou memória, espécie de enciclopédia que contém a matéria-prima de que é feito o autor e a literatura que produz. Na raiz, está a ideia de viagem.

É uma ideia que pede que se quebre a rotina e se saia do lugar, que pede que não se seja mero espectador. Como a arte. “Não é um monólogo”, defende. E escreve: “A noção de viagem como pura contemplação, solitária e silenciosa, é muito apelativa, romântica, e, apesar de ser bastante século XIX, continua a ser nos dias de hoje uma visão idealizada da viagem, qualquer coisa entre a austeridade ascética (por vezes misantrópica) e um misticismo artificial, que se manifesta na busca de uma natureza mitificada, um reencontro com uma harmonia perdida. Se, por vezes, estas viagens acabam por embater na realidade, que não se compadece com delicadezas românticas, também podem correr muito bem, e resultarem em poemas como os de Bashô”, o grande poeta japonês do século XVI. Sublinha Afonso Cruz que uma e outra noção de viagem apresentam vantagens, mas não prescindem dos encontros do percurso.

Por isso o espanto com a frase do ciclista: “Achei aquilo incrível! Soou-me tão mal, mas tão mal...”, diz, agora sentado no seu lugar de retorno, a casa onde vive no interior do Alentejo, cotovelos apoiados nos joelhos, mãos cruzadas sob o queixo, os olhos a sublinhar a surpresa daquela noite há muitos anos. Eles sintetizam o espanto perante o oposto da condição do viajante tal como a entende. Há um ponto de partida e, no trajeto, uma predisposição para o encontro, os contágios, o confronto com a diferença, o acaso, as remissões a que tudo isso leva, até à transformação que passa pela absorção da experiência no regresso. Ele explica no tom mais causal, fora do livro: “É fundamental a ideia de regresso, como se regressa e o que isso também implica nas nossas vidas, porque as histórias e a literatura também são construídas assim, mais ou menos dessa maneira; há uma viagem que se faz, pode ser interior ou mais literal, mas quase sempre se volta ao local de origem, ainda que numa superposição, ou seja, não exatamente ao sítio de onde se saiu, mas a um sítio um pouco diferente porque houve a experiência dessa viagem.”



O círculo fecha para logo se abrir outro círculo e a figura da viagem, que vale para a leitura e para a escrita, é mais uma espiral do que uma circunferência. Isso vale para o viajante como para o escritor que escreve em reação. Ao que vê, ao que lê.

É o passeio. Esse caminhar duas vezes, Jalan Jalan, na língua de Bali, a palavra “caminhar” repetida, um plural que muda o sentido dos passos. “Passear é andar duas vezes”, aprendeu, e fez-lhe sentido. “O passeio é uma atividade lúdica que não tem fim”, diz. Como no livro, intercala o pensamento com histórias; dá exemplos, deixa entrar as ideias que o assaltam. “Penso assim, por associações”, justifica. Importa a súmula. Gosta do passeio mas também gosta de fins, de chegar. “O fim é o início de outra coisa. Mas gosto ainda mais da ideia de não ter uma recompensa ulterior quando estou a fazer as coisas que são as mais importantes, as que têm um valor intrínseco. É a diferença entre um refugiado que tem de viajar para sair do seu lugar para chegar a um destino. Se ele pudesse não viajar, não viajava, aquilo não vale absolutamente nada para ele; pelo contrário, pode ser uma dor gigante. Eu passeio, faço a viagem porque ela tem valor dentro dela e não no destino. O valor dessa viagem não é o destino mas é ela mesma.”

Também a conversa tem o seu trajeto. Ché e Rosa chegam para quebrar o gelo. São os cães que conhecemos do livro, da imagem onde um e outro dormem voltados um para o outro, e como metáfora da bondade, dois irmãos adotados por Afonso de uma ninhada de cachorros. Não ladram. Cheiram os estranhos muito de perto, cada vez mais perto, até ao conforto de não haver mais estranheza e passarem a fazer umas visitas enquanto correm pelo campo em volta ou de dormirem na porta de entrada aproveitando um sol que faz esquecer o frio. O silêncio não é total. Ouvem-se badalos de ovelhas, um carro passa de vez em quando na estrada. Há café bebido a olhar as laranjeiras carregadas e os catos que dão fruto. É este o lugar do retorno. “Onde vivo as sombras têm qualidades, por exemplo: diz-se que a sombra da figueira faz mal e não devemos expor-nos a ela” (pág. 230). É o lugar que escolheu, onde depois do êxtase inicial encontrou, como ainda há pouco, Ché e Rosa — o conforto de quem não estranha e talvez isso seja a felicidade.

Abrir a janela pela manhã e ver o campo coberto de neblina pode ser um despertar para essa “vida boa”, expressão da antiguidade clássica que prefere a outras. Mas... “Idealiza-se muito o campo. Tenho brincado muito com isso, já disse que olhar para ovelhas não faz de ninguém um génio. Há quem ache que se vier para o campo de repente tem inspiração, como se o campo tivesse propriedades mágicas de tornar uma pessoa medíocre num génio. Não tem, e há coisas muito feias no campo, como há coisas muito bonitas. Muitas vezes chegam cá e apercebem-se de que existem bichos.” Como ser nómada não é necessariamente melhor do que ser sedentário, por exemplo. “Não podemos ser radicais e rejeitar simplesmente um tipo de vida e abraçar outro quando podemos tirar o melhor de cada um.”

Está no campo, a uma hora e meia de carro da grande cidade ou de apanhar um avião, ou um barco, ou... Está-se à conversa e o trajeto da conversa também importa. Nele reforça-se o interesse do escritor por conceitos como o tempo e o espaço, a dicotomia nómada-sedentário, o sonho, o ócio — “A grandiosidade é saber enfrentar o ócio”, (pág. 234) —, o amor, a morte a literatura. E sempre o questionar tudo, sentir o pulsar de qualquer coisa que talvez se designe por “consciência do mundo”. É o oposto do ciclista a percorrer o território. Aplica a espiral da experiência de viajante para a escrita como a continuidade de um modo de ser. “Escrevo quando estou a ler. Em reação a... É como um círculo. A leitura e a escrita funcionam quase como um baile. Leio, tenho uma ideia graças ao que estou a ler, interrompo para anotar, ou escrever um diálogo, por exemplo, e retomo a leitura quando sinto que já não tenho mais nada para desenvolver, que o texto está fechado; volto à leitura, leio mais o que for preciso e, enquanto estou a ler, de repente há uma palavra ou uma frase ou uma ideia naquele livro que me faz surgir outra ideia, e penso em anotar e tudo recomeça”, diz, como quem conta os passos de um percurso em que a recompensa não existe sem a experiência. “O mundo costuma ser mais complexo do que as nossas conclusões”, lê-se no texto “Muito tempo depois ainda se cai das torres”, alusão ao momento apresentado como o do início de um novo tempo, o do terrorismo global, em que ainda afirma: “Recuso-me a ficar só com as conclusões, porque estas conclusões muitas vezes não passam de cabeças decepadas...”

Essa viagem foi quase há 17 anos. A descrição é feita com recurso à memória e nesse texto, como nos 223 que compõem o livro, a primeira pessoa é a do autor, Afonso Cruz, 46 anos, natural da Figueira da Foz, ilustrador, músico, escritor, filho e neto de fotógrafos, que muito cedo concordou com Michel Tournier, o francês autor de Sexta-Feira ou a Vida Selvagem, e achou que a fotografia era um mau aliado do viajante. Fixava a memória, matando a sua plasticidade natural. A memória é mutável e a fotografia fixa-a, altera a relação do viajante com a paisagem, com o objeto do olhar. Já não acredita só nisso, apesar de não refutar totalmente. Outro paradoxo. “O viajante pode escolher ter a máquina e mesmo assim demorar-se na paisagem”, diz. Por isso, além dos textos, em Jalan Jalan há pela primeira vez fotografias — sempre a preto e branco — do autor.

O livro nasceu da dispersão. Ele conta: “Quando comecei a viajar sozinho, como não levava máquina fotográfica, levava blocos. Era a minha forma de gravar o que via, de não me esquecer das coisas que ia experimentando, tanto diálogos como descrição de paisagens. O facto de não ter a máquina implicava outro tipo de gravações, ou pelo menos eu pensava assim. Comecei por tirar alguns apontamentos que depois deram alguns textos para o Jornal de Letras. Mais tarde, comecei a escrever também sobre a teoria da viagem; o que a viagem me traz em termos teóricos, racionais, não só a experiência in loco, mas depois aquilo que mastigamos quando voltamos. Juntei depois a outro tipo de coisas, leituras, às vezes ligadas com as viagens, outras menos.

Fotografar faz agora tão parte da sua biografia como a recusa de fronteiras, características de uma identidade moldada pelo contágio, a contaminação. “Quando falo da minha pátria, mais do que um território, falo da minha cultura, da minha infância, dos meus amigos, dos meus familiares, do que li, do que vi. Pessoa faz parte da minha pátria, assim como Dostoiévski e Saint-Exupéry e Dylan Thomas e Plotino.” E acrescentam-se muitos. Albert Cossery, Vergílio Ferreira, Santo Agostinho, Elias Canetti, Unamuno, Luís Bernardo Honwana, o Talmude, a Bíblia; Almada Negreiros, Pascal, Machado de Assis, Epicuro, Platão, Kazantzakis, toda a mitologia, Lars Gustafsson, Andrés Neuman. Ou Kurt Vonnegut e Simon Leys. Pode também ser o índio Alberto, o guia boliviano que o levou a desfazer a primeira grande ilusão naquela que foi a sua viagem inaugural. E cita Albert Cossery: “O verdadeiro escritor dispõe de um material limitado que é a sua visão do mundo.”

O viajante fez o escritor?   

Quando partiu para essa viagem, a primeira, Afonso Cruz não pensava na escrita como atividade profissional. “Não, eu não pensava em ser escritor. Tomava notas apenas por necessidade e não por motivos estéticos. Viajava sozinho e ao viajar sozinho há momentos solitários, mas se estiver a escrever ou a ler não sinto a solidão. Escrevia e lia também para evitar a sensação de solidão que acontece especialmente nas cidades e não tanto junto da natureza. Ao ver uma paisagem lindíssima não sentimos tanto essa solidão, mas quando estamos rodeados de pessoas com as quais não conseguimos comunicar. Pode ser uma contradição, mas é exatamente na cidade, e em bares e restaurantes, que mais se sente a solidão. Nessas alturas, se tiver um livro ou um bloco para ir apontando o que fui vendo naquele dia já não sinto a solidão. Ou pelo menos já não a sinto da mesma maneira.”

Talvez a escrita tenha começado assim. Uma reação que detetou logo nessa primeira vez. Tinha 23 anos. Pôs um saco ao ombro, comprou um canivete suíço e foi à procura de uma pureza que idealizara. “Era um viajante ingénuo”, ri. Tinha um bilhete para a Bolívia, o país que lhe diziam ser a síntese da América do Sul. Queria o encontro com o indígena, o verdadeiro homem, não corrompido “pela educação”. Conta a experiência noutro texto a que chamou “Ecce Homo, o homem que reunia essência”, espécie de cânone humano, figura que lhe serve depois para desenvolver a ideia de outros cânones e entrar na dicotomia bem/mal, aprofundar a questão do paradoxo, central neste livro e no seu pensamento. “(...) há qualquer coisa comum e, quanto mais entramos, mais as coisas se parecem, mais homogéneas são, mais reduzimos os acidentes e as diferenças e mais perto estamos de uma essência comum, de um bloco construtor”, escreve, para logo acrescentar outro conceito recorrente, o de entropia: “Se viajarmos para dentro das coisas, a entropia baixa no sentido do centro e aumenta no sentido da periferia. A moral sofre desse mesmo efeito (...).”



Ou seja, há um osso comum e o bem e o mal fazem parte dele. É isso a essência, o absoluto? Responde que, a haver um absoluto, ele existe na contradição. Chamem-lhe deus, verdade ou deslumbramento, “o sublime”. Ele chama-lhe paradoxo. A viagem é só um deles. “Por vezes até existe uma ideia muito otimista em relação à viagem, acreditamos que a viagem pode mudar muito as pessoas, ser transformadora. O mundo estaria muito melhor se fosse assim, se esse otimismo fosse justificado, mas o que sentimos é que as pessoas mudam muito pouco. Ou seja, são as pessoas que estão predispostas a mudar alguma coisa que vão enriquecer com esse aspeto da viagem. Outras não querem mudar nada e viajam simplesmente para corroborar as suas opiniões originais, aquelas que tinham antes de sair para viajar.”

Talvez então o absoluto ou a verdade tenham que ver com a perspetiva. Foi-lhe revelada por Cézanne nas aulas em Belas Artes. “Creio que os impressionistas foram os primeiros a pensar a arte com uma viagem física incluída” (pág. 375). Um passo ao lado e a perspetiva muda. Onde se via, um banco com dois pés passa a estar um banco de quatro pés. Chama-lhe também “o lugar do outro” ou empatia, a tal palavra que, correndo o risco de ser gasta, é a que melhor lhe serve para explicar a função do viajante como a entende, mas também a do leitor e a do ficcionista. Lembra a história de Flaubert, de tal forma empático com a sua personagem Bovary que se sentiu agoniado com o sabor do arsénico na boca quando escreveu a cena do envenenamento e, “depois de jantar, vomitava”. Cruz confessa que não chega tão longe. “Comovo-me bastante a ver filmes, a ler livros, choro etc., e às vezes também com as minhas personagens, mas o mais longe que fui foi soltar umas lágrimas — mas não vomitar ou sentir o sabor de arsénico na boca. Isso é um bocadinho século XIX demais para mim.”

No prefácio a Jalan Jalan, o astrofísico Pedro Mota — que o ajudou “a que não dissesse disparates quando fala de ciência”, refere Afonso Cruz — sublinha a dimensão universalista do livro e chama ao autor do livro “viajante de longo-curso”: “Aqui há toda uma discussão cosmogónica, uma crítica vibrátil ao saber estabelecido, que tanto o pode reconstruir de forma mais sólida como o pode fazer vacilar de forma perigosa.”

Esse vacilar sente-se, não se esconde nunca nestas quase 650 páginas onde há uma respiração por vezes mais veloz, noutras pausada, fragmentada. Os conceitos repetem-se em diferentes contextos, não há quase nunca uma só definição para uma coisa ou uma ideia. Tudo contempla o seu contrário. Há a escuridão e a luz, e a escuridão que deixa entrar a luz. A falha, o silêncio, a ira, a justaposição de pensamentos e de autores. Escritores, artistas plásticos, filósofos, matemáticos, músicos. E a política. “Toda a visão, porque é uma interpretação, é política” (pág. 152). Mas aqui Afonso Cruz não se limita a isso. “Vivo neste mundo, neste contexto, e não abdico disso”, refere para justificar a razão pela qual fala de refugiados, neoliberalismo, liberdade, ganância, apatia, transmigrações, alheamento, máscaras. “Acho que o escritor não tem de o fazer, mas tem a ferramenta e pode usá-la. Escolhi usar. Era um desperdício não usar. É uma opinião. Não é uma regra nem deve ser uma regra, até porque a escrita é um espaço de liberdade. Se dizemos que um escritor deve fazer determinada coisa, já estamos a oprimir esse espaço e a tirar-lhe alguma liberdade.”

Um exemplo: “A moral da Odisseia é ainda conhecida pela lei do mais forte (entre os amigos, porque as pessoas de outro gosto têm nomes menos bonitos para ela). Mas estas ideias também vingam pelas ruas das nossas metrópoles, é o ‘cada um por si’, ou ‘neoliberalismo’, para usar o calão. Dano colateral é o nome pomposo que se dá aos filhos mortos, aos irmãos mortos, aos amigos mortos, e é sempre dado por quem mata ou acha que está certo matar. A apoiar o genocídio há sempre uma moral teleológica, que é aquela que diz que os fins justificam os meios.” O “banho de sangue final” do livro de Homero, um dos primeiros sobre a viagem e o retorno, a grande metáfora, poderia ter sido imaginado por Tarantino, refere Afonso Cruz. Na arte pode-se. Convém não a aplicar à vida de forma tão literal, subentende-se.

A espaços, fuma um cigarro. Sempre na rua, outra vez as laranjeiras, o limoeiro, o campo por cultivar logo ali. O tanque com a água de Inverno, os cães a pedir uma festa. O sol começa a cair, a temperatura desce. O pastor regressa com o rebanho. Há uma única ovelha negra. O pastor acena ao vizinho, o vizinho acena de volta. Entendem-se no gesto diário. O conforto do quotidiano, da rotina que depois é preciso quebrar para procurar a diferença e pôr tudo outra vez em perspetiva. Nas notas da tal viagem inaugural sublinhe-se uma para ilustrar a ideia. “Se há quem ache os índios pouco cultos ou inteligentes, fiquem essas pessoas sabendo que eles pensam o mesmo delas.” 


por Isabel Lucas in Público | 9 de fevereiro de 2018
Fotografias de Miguel Manso
Notícia no âmbito da parceria Centro Nacional de Cultura | Jornal Público

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