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Património

Pintura mural do século XVI, única em Portugal, descoberta em Picote

O painel de frescos com mais de quatro metros de comprimento e cinco de altura é um ciclo narrativo da vida de S. João Baptista. 


Único no nosso país, foi descoberto na capela de Santo Cristo, em Picote no concelho de Miranda do Douro, na sequência das obras de restauro do altar-mor.

O painel, com mais de quatro metros de comprimento e cinco de altura, retrata episódios alusivos à figura de S. João Baptista, desde a visitação (encontro de Nossa Senhora com Santa Isabel) passando pelo batismo de Jesus, até à decapitação do profeta.

A descoberta foi feita no âmbito de um pedido de intervenção no altar-mor do templo religioso.

“Quando chegamos à capela para o diagnóstico do retábulo, observamos que havia pintura mural por detrás, apesar de não ser muito visível”, conta à Renascença Lília Pereira da Silva, diretora do Centro de Conservação e Restauro de Arte Sacra da diocese de Bragança-Miranda.

Em conjunto com a comissão fabriqueira e a comunidade “chegou-se à conclusão que só havia uma coisa lógica a fazer: a desmontagem do altar para saber qual a extensão do núcleo do mural”, prossegue a responsável.

O retábulo foi desmontado e, para surpresa dos técnicos, surgiu um grande e importante “painel decorativo do século XVI, cheio de cor, de vermelhos e ocres intensos e zonas decorativas com imitação do tecido da época, como brocados, de um lado e do outro, criando um certo ambiente de maior conforto, quase deslumbramento”, realça Joaquim Caetano, especialista em pintura mural.

António Pires, pároco de Picote e presidente da Comissão de Arte Sacra e Bens Culturais da diocese de Bragança-Miranda, mostra-se satisfeito com a “descoberta e pela intervenção bem conseguida”.

Também a vereadora da Câmara Municipal de Miranda do Douro, Anabela Torrão, diz-se “estupefacta com tamanha riqueza” e valoriza o “trabalho excecional feito pelo Centro de Arte Sacra, pelos seus técnicos, de uma qualidade impressionante e que enriquece todo o património de Miranda do Douro”.

“Não podemos ter uma pintura com 400 anos com aspeto de ter sido feita ontem”

O conservador e historiador de arte, Joaquim Caetano, acredita tratar-se de “uma obra única, um ciclo único de João Baptista, em termos de pintura e de cenas representadas”.

Apesar de a pintura apresentar um bom estado de conservação, a intervenção, a cargo do Centro de Conservação e Restauro de Arte Sacra da diocese de Bragança-Miranda, passa por “repor as linhas de composição das molduras, dos fundos cromáticos e da cor”.

“Quanto às figuras, zonas onde não há certeza daquilo que estava lá, fica a lacuna, mas vamos tratá-las com um tom neutro, de modo a que, numa primeira leitura, não seja o elemento mais visível”, explica Joaquim Caetano.

Para o técnico, é fundamental respeitar a obra de arte, porque, diz, “as coisas têm um tempo, têm uma vida. Hoje não podemos ter uma pintura com 400 anos com aspeto de ter sido feita ontem. Isto é quase um ato de iconoclasta. É desvirtuar aquilo que é a autenticidade daquela peça”, realça.

E mais uma pedra de ara e uma estela funerária

Além da pintura mural, no templo foram descobertas “uma pedra de ara e uma estela funerária”, revela a diretora do Centro de Conservação e Restauro de Arte Sacra, adiantando que este “património pode ser deslocalizado para o centro interpretativo de Picote ou ficar na capela”.

Técnicos da Direção-Regional de Cultura do Norte já visitaram o local e tomaram contacto com as descobertas, manifestando “uma grande vontade em classificar aquele sítio como património de interesse público”, avança Lília Pereira da Silva, sublinhando que “é importante esta classificação e tem tudo para o ser”.

Luís Preto, da Comissão Fabriqueira da paróquia de Picote, considera a descoberta e a possibilidade de classificação “uma riqueza para a aldeia que é rica em património e já integra as Aldeias de Portugal”.

A capela de Santo Cristo, onde foi descoberta e está a ser conservada a pintura mural do século XVI, desempenhou o papel de igreja paroquial de Picote até à construção da atual igreja.


por Olímpia Mairos in Rádio Renascença | 7 de janeiro de 2018

Notícia no âmbito da parceria Centro Nacional de Cultura | Rádio Renascença

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