"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"

A Vida dos Livros

"Peregrinações em Lisboa" de Norberto de Araújo

Um clássico que ainda hoje deve ser consultado, para melhor conhecermos a cidade de Lisboa e os seus extraordinários segredos históricos. Invocamo-lo a propósito do recente programa «Visita Guiada» (RTP2) de Paula Moura Pinheiro sobre as igrejas do Chiado… 


A VIDA DOS LIVROS por Guilherme d'Oliveira Martins

De 8 a 14 de janeiro de 2018.

PEREGRINAÇÃO INESGOTÁVEL
No caso da “Visita Guiada” há sempre um ambicioso guião e do muito que há para falar fica sempre muito por dizer. Eis por que razão, devemos agir como fizeram peregrinadores da cidade como Júlio de Castilho ou Norberto de Araújo – dando pistas para que o “dileto viajante” possa por si não só fazer a caminhada necessária, mas também descobrir o fio da meada numa extensão sempre incerta e inesperada. Quando a Paula Moura Pinheiro me desafiou a fazer o percurso das igrejas do Chiado para a RTP2, acertámos que esse seria o pretexto para podermos tentar entender o que foi acontecendo no mítico lugar das Portas de Santa Catarina, muralha fernandina abaixo (da rua da Misericórdia ao Alecrim) ao longo do tempo, e sobretudo sob o efeito do Terramoto de 1755, que arrasou o Carmo e a Trindade e tudo que os circundava. Um programa de televisão, com tempo limitado, exige um enorme esforço – que os telespectadores podem sempre achar excessivo ou minguado, mas que corresponde ao que a grelha exige. Porquê uma concentração tão grande de templos naquele local? Eis uma pergunta que apenas pode ser respondida se percebermos que estamos no que era a fronteira da cidade de Lisboa na segunda metade do século XIV. A muralha protegia e levava a uma grande concentração populacional intramuros. Só mais tarde a cidade se abriria, para além do postigo de S. Roque, para o Bairro Alto, na Vila Nova de Andrade, lembrando os ecos do grande sismo de 1531 e a antiga herança de Mestre Guedelha, proprietário da herdade de Santa Catarina… E se as recentes obras do Largo de Camões trouxeram à luz do dia as fundações e os baixos do Palácio dos Marqueses de Marialva, a verdade é que essa era já uma edificação do século XVII… A porta de Santa Catarina situava-se onde hoje é o Largo das Duas Igrejas, tendo frente-a-frente o Loreto e a Encarnação – sendo o termo da Rua Larga, que hoje toma o justo nome de Garrett, e vinha da Pedreira (hoje Armazéns do Chiado), onde Frei Bartolomeu de Quental fundaria o Convento Oratoriano do Espírito Santo. E, para abreviar razões, lembre-se que em 1384 aqui assentou arraiais D. Juan de Castela, casado com D. Beatriz, filha de D. Fernando, ainda criança, no cerco de Lisboa, levantado quando a jovem apresentou sinais de peste… Nesse tempo, havia, fora de portas, campo de cultivo também usado pela pastorícia.

ENCOMENDA PRODIGIOSA
Mas voltemos um pouco atrás, ao início da “visita guiada”, a S. Roque, no “adro da peste”, onde se ergueu uma pequena ermida em 1506, por ocasião de uma epidemia, pedindo graças ao santo protetor da enfermidade. A Irmandade que persiste com a missão de realizar as obras de misericórdia materiais e espirituais reúne hoje três antigas Irmandades – a da Misericórdia (fundada por D. Leonor em 1498), a de S. Roque e a dos Carpinteiros de Machado. Aí se instalaria a casa professa da Companhia de Jesus, começando a erguer-se o templo em 1555. Em 1573, as paredes estavam de pé, mas a cobertura suscitou dificuldades, sendo a complexa solução em madeira da Prússia encontrada por Filipo Terzi, já depois de 1580. O templo é ricamente adornado com excelentes obras de arte e objeto de generosidades régias, em especial de D. João V, merecendo destaque a magnífica Capela de S. João Batista – uma autêntica preciosidade encomendada em 1742 aos artistas italianos Nicola Salvi, e Luigi Vanvitelli. Jörg Garms é claríssimo sobre a obra: “forse… la capella piú rica mais construita… Un scrigno di straordinaria eleganza e unita”. A mais rica jamais construída. É a “encomenda prodigiosa”, na riqueza, na escala, na harmonia do programa (como disse António Filipe Pimentel). E não podemos esquecer a coordenação de João Frederico Ludovice, o ourives-arquiteto alemão que marcou decisivamente a rica coerência joanina. A obra foi organizada em Roma como um autêntico puzzle, sagrada em Santo António dos Portugueses (1744) e inaugurada quando D. João V já tinha morrido (1751). Sousa Viterbo refere esta joia inesquecível como um “gozo inefável para os sentidos”. “Monumento que anuncia já o neoclassicismo” – dirá o Professor J.A. França. Foi necessário procurar em toda a Itália os minerais e o esmalte aqui presentes, os medalhões são de mármore de Carrara, as oito colunas de estilo coríntio de lápis-lazuli, e encontramos ainda alabastro, jaspe, ametistas e tudo o mais. As obras de arte fundamentais são três preciosos quadros em mosaico, com pedrinhas de mil tonalidades – Batismo de Cristo, Anunciação e Pentecostes (de Moretti sobre cartões de Massuci). Não fora a riqueza artística, quase com ironia, Norberto de Araújo falava de um autêntico museu de geologia e mineralogia...    

DE S. ROQUE A SANTA CATARINA
S. Roque tem quinze capelas construídas em épocas diferentes, todas a merecer visita cuidada. No altar-mor alternam sete quadros conforme as épocas litúricas e encontramos imagens de santos da Companhia: Santo Inácio, S. Francisco de Borja, S. Luís de Gonzaga. E não podemos, sem uma ponta de emoção, deixar de recordar o belo poema de Sophia de Mello Breyner, “Meditação do Duque de Gandia sobre a morte de Isabel de Portugal”: “Nunca mais amarei quem não possa viver / Sempre…”. Lembrança indelével de S. Francisco de Borja. No corredor para a sacristia está a sepultura de Simão Rodrigues de Azevedo, que introduziu a Companhia em Portugal, e na sacristia deparamo-nos com imagens da vida de S. Francisco Xavier, da autoria provável de André Reinoso. E não podemos esquecer que, entre mil relíquias, aqui se encontra sepultado Francisco Suárez (1648-1717), o pensador célebre, com influência decisiva na renovação do pensamento político, filosófico e jurídico. O terramoto de 1755 atingiu o templo de S. Roque, sobretudo a fachada, mas não comprometeu o essencial do seu recheio. Por isso podemos usufruir de todo este esplendor…

Nas portas de Santa Catarina recordámos a necessidade de abrir a cerca fernandina para permitir a passagem do sumptuoso cortejo do casamento de D. João V com D. Maria Ana de Áustria (1708). E lembramos José-Augusto França a dizer que se a capital de Portugal é Lisboa, o Chiado é a capital de Lisboa. A crónica lisboeta não dispensava os janotas da Havanesa, do Marrare, do Grémio Literário. Luísa encontra o Conselheiro Acácio e escapa-se para a igreja dos Mártires. Garrett, Herculano, Camilo, Eça de Queiroz, Columbano e Rafael Bordalo Pinheiro (seu irmão) todos por aqui passam. Um dia chamaram azul a Cesário Verde, que devolveu o piropo, chamando troca-tintas ao triste jocoso. A cidade cosmopolita leva a rica comunidade italiana a adquirir o Loreto, mudando o orago de Santo António para Nossa Senhora. E a Encarnação tornou-se filha do Loreto, num longo processo que exigiu a demolição de parte da velha muralha. Mas foi o terramoto com efeito violento nesta área, que obrigou a alterações significativas. A Basílica dos Mártires, a recordar os cristãos caídos na reconquista, cujo sino é o da aldeia de Fernando Pessoa, é um esmerado resultado do projeto de Reinaldo Manuel, com a célebre invocação de D. Afonso Henriques de Pedro Alexandrino de Carvalho. E a Igreja do Santíssimo Sacramento, em terrenos dos condes de Valadares, também com traçado de Reinaldo Manuel e pinturas do mesmo Pedro Alexandrino, é uma bela surpresa, equilibrada, recolhida, rica de espiritualidade… Peregrinar pelo Chiado é, de facto, visitar a face aberta da nossa cultura!

Guilherme d'Oliveira Martins
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