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Um concerto para dez anos de coragem

A Orquestra de Câmara Portuguesa comemora dez anos de existência, num momento em que paira uma enorme indefinição sobre o seu futuro. 

A Orquestra de Câmara Portuguesa (OCP) em 2007, o ano em que nasceu.


Um concerto raro que junta a OCP e a Jovem Orquestra Portuguesa, dois projetos de excelência no panorama musical português. É preciso coragem.

Uma década a destilar intensidade, energia, identidade, imaginação. A Orquestra de Câmara Portuguesa (OCP) comemora 10 anos de vida. “É uma celebração, mas os tempos são complicados”, diz Pedro Carneiro, diretor artístico da OCP e um dos fundadores do projeto, com Teresa Simas, José Augusto Carneiro e Alexandre Dias, em julho de 2007. O primeiro concerto foi há exatamente dez anos, no dia 13 de setembro daquele ano.

Os tempos estão complicados, segundo Pedro Carneiro, porque “não sabemos o que nos espera. Não sabemos como será o futuro deste novo modelo de apoio às artes. Não sabemos se é possível continuar.” Segundo o diretor artístico da Orquestra de Câmara Portuguesa (OCP), o que falta é o comprometimento do poder político: “O que não tem acontecido é o compromisso político. Não é uma pancadinha nas costas que altera o panorama”, diz. O reconhecimento nacional e internacional da Orquestra de Câmara tem sido visível. O entusiasmo pelo projeto por parte do público, da crítica, de instituições e personalidades tem sido grande. No site da OCP, destacam-se por exemplo as palavras de Marcelo Rebelo de Sousa (“o trabalho extraordinário deste grupo de jovens músicos”) ou de Jorge Sampaio, que disse sobre os projetos da OCP: “dar-lhes continuidade é essencial”. Mas a incerteza atual e a “falta de compromisso” pode... comprometer o projeto.

A Orquestra de Câmara Portuguesa (OCP) é um caso de excelência artística e tem desenvolvido um trabalho permanente de captação, valorização e profissionalização de jovens músicos talentosos, através de um projeto com diferentes componentes. “Não é só uma Orquestra de Câmara, é muito mais”, explica-nos Pedro Carneiro, referindo, para além da Orquestra de Câmara Portuguesa (OCP) e da Jovem Orquestra Portuguesa (começada em 2010, com outro nome e finalmente em 2016 como JOP), como houve muito trabalho permanente em parcerias com escolas e instituições. O Centro Cultural de Belém, é claro, que tem apoiado o projeto e é onde a OCP se tornou orquestra residente. Mas também, por exemplo, em parcerias com escolas superiores, com bandas filarmónicas, ou na criação da Orquestra Académica da Universidade de Lisboa, que a OCP ajudou a lançar. Ou ainda em projetos solidários como o Notas de contacto, com pessoas com deficiência (em parceria com a CERCIOeiras). São exemplos de um trabalho de intervenção social e de “cidadania” que a OCP procurou realizar desde o início. Pedro Carneiro não tem dúvida de que “a Orquestra de Câmara Portuguesa ajudou a mudar o panorama musical e das orquestras em Portugal. Para além disso, ajudou a criar outras iniciativas.” Neste concerto está presente tudo isso, e mais alguma coisa.

Um enorme desafio artístico

Juntando a Orquestra de Câmara e a Jovem Orquestra Portuguesa, este é, segundo o diretor artístico da Orquestra de Câmara Portuguesa, “um concerto em que está presente toda a componente social” do projeto. Mas é também um exemplo da exigência dos objetivos artísticos da orquestra, propondo um programa que junta duas grandes obras: A Sagração da Primavera, de Stravinsky, e a Heróica de Beethoven, a sua 3.ª Sinfonia. Um programa ambicioso? “Ambicioso, sim, mas nada quando comparado com a ambição destes 10 anos”, diz Pedro Carneiro. O diretor artístico lembra, como exemplo mais recente da extraordinária capacidade artística deste jovens músicos, o sucesso da última digressão à Alemanha.

A JOP tocou na Konzerthaus Berlin no dia 1 de setembro passado: “No início deste mês fomos a Berlim, tocámos um dia depois da Gustav Mahler Jugendorchester e um dia antes da Orchestre Français des Jeunes, duas orquestras juvenis de excelência.” Foi um concerto extraordinário em que trouxeram não apenas um aplauso caloroso como também um prémio para a muito jovem compositora Mariana Vieira, “compositora JOP” (nascida em 1997). Ela venceu o Prémio de Composição do European Composer Award, integrado no Festival Young Euro Classic, com a obra Raiz, um concerto estreado em Berlim, sob a direção de Pedro Carneiro. Mas antes disso a JOP já tinha tocado — de cor! — a Abertura de Der Freischutz, de Weber, algo que foi, segundo o maestro, “imensamente desafiante”. Nesse mesmo concerto foi tocada a Heróica de Beethoven que esta quarta-feira será de novo interpretada no Grande Auditório do CCB. Pedro Carneiro considera-a “um enorme desafio intelectual e artístico para jovens entre os 14 e os 24 anos, como são os da JOP”.

“O todo em cada nota”

Pedro Carneiro revela-nos como consegue, com estes jovens talentos, fazer coisas tão extraordinárias: “Há uma atitude que eu crio nos ensaios. Eles são tratados como profissionais.”

Para além disso, há uma questão musical de fundo: “Eles têm de compreender o todo, em cada nota que tocam.” Coisas essenciais que fazem toda a diferença quando ouvimos a OCP ou a JOP em ação. São orquestras que não perdem de vista a missão declarada da OCP: “Tornar a arte e a música indispensáveis na sociedade, através da cultura do conhecimento, da excelência e do empenho da sua práxis, servir de plataforma de lançamento para novos talentos nacionais e apostar na energia e imaginação associadas a cada concerto.” A música não é apenas um pretexto, é algo de essencial, e para além de “embaixadora de excelência”, a OCP pretende ser uma inspiração permanente para os músicos e para o público que os ouve. “Somos considerados um case study de excelência artística e até na gestão e na capacidade de angariação de fundos própria”, diz Pedro Carneiro. Em relação aos objetivos artísticos, Pedro Carneiro não tem dúvida de que eles têm sido atingidos e, embora ele não o diga, é o seu entusiasmo e a sua visão que estão patentes neste percurso de dez anos de uma orquestra muito especial que ele dirigiu artisticamente desde o início.

O programa desta quarta-feira à noite não deixa de ter algum simbolismo: “São duas grandes obras com heróis que nascem, vivem e morrem”, diz Pedro Carneiro. No ciclo O som da coragem, a ideia é um pouco como um jogo de crianças: e se a coragem tivesse um som? Que som seria? “Aqui vão estar juntas para tocar a JOP e a OCP, uma versão alargada da orquestra para duas obras corajosas em que os heróis são, numa delas um homem, noutra uma mulher”, diz Pedro Carneiro.

“É um prazer enorme e uma oportunidade rara. Não sei se haverá outro concerto assim”, diz o maestro. “Vai ser uma grande rave, no fundo, no melhor sentido da palavra.” Quer dizer, uma grande festa. Para enfrentar as dúvidas sobre o futuro, mas sem perder o enorme entusiasmo destes dez anos de trabalho árduo, intenso, excelente. Porque “o projeto cresceu, mas precisa de estrutura e de compromisso”, insiste Pedro Carneiro. Coragem. A Orquestra de Câmara Portuguesa tem de continuar.


por Pedro Boléo, in Público | 13 de setembro de 2017
Notícia no âmbito da parceria Centro Nacional de Cultura | Jornal Público

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