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"No Bons Sons, nós não envolvemos as pessoas, as pessoas são o festival"

O recinto, que é a própria aldeia, pode receber 10 mil pessoas por dia_Miguel Madeira


Cem Soldos está quase preparada. Estão a abrir-se as portas da aldeia para a obra comunitária que é o Bons Sons. "É uma vivência integrada, a da música e a da aldeia", diz o diretor Luís Ferreira. Esta quinta-feira é o dia da receção ao campista.

Por esta hora, os infatigáveis operários de todas as idades e de vários saberes estarão a dar os retoques finais nos pórticos de cada uma das entradas, nos palcos que ampararão a música, nas costuras das Tixas, a mascote oficial com corpo de lagartixa, no curral onde descansarão os burros mirandeses. Por esta hora, a aldeia viverá o crescendo final da azáfama em que se afadigou nas últimas semanas para que Cem Soldos se transforme no Bons Sons.

Assim é desde 2006, o ano da estreia, assim é desde 2014, o ano em que, fruto do seu sucesso, os organizadores, ou seja a associação cultural Sport Clube Operário de Cem Soldos (SCOCS), ou seja, a própria aldeia de mil habitantes do concelho de Tomar, decidiu que o festival deixaria a sua condição de bienal para passar a realizar-se todos os anos. Em 2017, há festa na aldeia outra vez, com nova visão caleidoscópica da diversidade criativa da música feita em Portugal, com a hospitalidade de sempre e a sensação de que cem-soldenses e visitantes são, naqueles dias, conterrâneos em convívio e partilha de um espaço que, como se verá a partir desta quinta-feira, dia da receção ao campista com a DJ Inês Lamim como anfitriã musical, se descobre maior que a própria aldeia – de sexta a segunda-feira, entre as dezenas de concertos programados e divididos pelos oito palcos espalhados pelos largos do Rossio e de São Pedro, pela antiga eira comunitária ou pelo Auditório da aldeia, encontraremos Né Ladeiras, Throes + The Shine, Capitão Fausto, Rodrigo Leão, Samuel Úria, Orelha Negra, Paulo Bragança, Medeiros/Lucas, Filipe Sambado, ou Mão Morta e José Cid a apresentarem, respetivamente, os clássicos Mutantes S.21 e 10.000 Anos Depois Entre Vénus e Marte. O passe para os 4 dias de festival custa 45€ (campismo incluído), os bilhetes diários, 22€.

Luís Ferreira, diretor musical do Bons Sons (cem-soldense que é também, desde 2016, diretor do Centro Cultural de Ílhavo), explica que o festival percorre duas linhas condutoras que se cruzam. “É uma vivência integrada, a da música e a da aldeia”. Quanto à primeira, o festival pretende ser “uma plataforma da música moderna portuguesa”, abrangendo todos os géneros, várias gerações e cobrindo todo o território (“a programação vai dos Açores ao Algarve”). Quanto à aldeia, cujos habitantes são os responsáveis pelo erigir da obra comunitária que é o Bons Sons — “nós não envolvemos as pessoas, as pessoas são o festival”, acentua Luís Ferreira —, serve aqui como pólo através do qual se “pense e comunique de uma forma inspiradora o espaço rural, sem o mascarar, mas mostrando, com um discurso positivo e num contexto marcado pela tragédia dos incêndios e pela desertificação, os caminhos que tem como futuro”. Daí as colaborações estabelecidas com instituições que trabalham no espaço rural, como a Associação para o Estudo e Proteção do Gado Asinino, de Sendim, Mirando do Douro, que promoverá, por exemplo, passeios em burro mirandês, ou o Festival Materiais Diversos, fundado em Minde, Alcanena, que assegurará a presença das artes performativas no Bons Sons.

Com uma média nas últimas edições de cerca de 35 mil visitantes ao longo dos dias de festival, espera-se que o festival mantenha essa frequência de público. Ainda assim, Luís Ferreira alerta, “não nos interessa a escala, mas a qualidade”. O recinto, que é a própria aldeia, pode receber 10 mil pessoas por dia, “mas não fazemos questão de as ter todas, porque a partir de determinado número, há um ponto de caramelo que se perde”. Enquanto decorre a conversa telefónica com o PÚBLICO, Luís Ferreira é conduzido pelos arredores de Cem Soldos, tratando dos últimos pormenores de divulgação do festival nas localidades próximas. Fala dos objetivos do Bons Sons, dos novos pormenores, da aldeia que está quase preparada. “Todos os anos são uma novidade”, diz. “Temos sempre que recriar tudo para que pareça o mesmo”. Quem conhece o Bons Sons, não pediria nada mais, nada menos, que isso mesmo. 

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por Mário Lopes in Jornal Público | 10 de agosto de 2017

Notícia no âmbito da parceria Centro Nacional de Cultura | Jornal Público

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