"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"

A Vida dos Livros

"Fátima – Das Visões dos Pastorinhos à Visão Cristã"

"Fátima – Das Visões dos Pastorinhos à Visão Cristã" (Esfera dos Livros, 2017), da autoria de Carlos A. Moreira Azevedo é uma obra fundamental para a compreensão séria e serena de um fenómeno muito complexo, como Fátima, que deve ser analisado como rigor histórico e prudência, à luz de uma reflexão teológica, histórica e sociológica, que previna simplificações redutoras e especulativas.


A VIDA DOS LIVROS por Guilherme d'Oliveira Martins

De 15 a 21 de maio de 2017

A VISÃO CRISTÃ DE FÁTIMA

“A grande questão subjacente a toda a polémica sobre Fátima situa-se (…) na capacidade de percecionar o lugar das mediações entre a religiosidade popular e a visão cristã de Deus”. É o autor que o afirma, continuando: “Se Deus nunca ninguém o viu, o crente aceita a debilidade das mediações para alimentar a sua fé com sinais, que nunca atingem Deus, mas aproximam e ajudam a entrar em relação: gestos, ritos, memórias. Neste processo de humanização e encarnação, os videntes e profetas põem-se ao serviço das mensagens de Deus e a Igreja assume a missão de supervisão entre a religiosidade natural e popular e estes frágeis intérpretes da vontade de Deus”. Eis donde parte a obra, considerando que a fé é sempre pessoal (no sentido mais rico do termo), devendo ser compreendida muito para lá da pura racionalidade ou do cientificismo, mas em articulação com a razão – recusando a irracionalidade, que vive paredes meias com a magia. Estamos, pois, a falar de fenómenos testemunhados pela humanidade, com uma dimensão comunitária muito relevante, que devem ser considerados no contexto de uma religiosidade ou de uma espiritualidade adulta e consciente – leiam-se os testemunhos recolhidos por Leonor Xavier e veja-se o filme de João Canijo. E não esquecemos a afirmação de Paul Claudel: “Fátima é uma irrupção violenta e escandalosa do mundo sobrenatural neste agitado mundo material”. Eis por que razão temos de lidar com o fenómeno com especial atenção – até para que o mesmo seja respeitado e considerado como uma manifestação de fé. Cabe à Teologia integrar as devoções, ligando-as à globalidade da Revelação e à comunhão eclesial. E como temos aprendido, tantas vezes, tragicamente, ao longo da História, os fenómenos religiosos e a liberdade de consciência têm de ser compreendidos e respeitados, não numa lógica absolutista ou relativista, mas num são pluralismo, que pressupõe um diálogo informado e conhecedor. Nada pior do que os monólogos sobranceiros e ignorantes, que apenas favorecem a irracionalidade e a intolerância.

Uma visão cristã do fenómeno de Fátima obriga a partir de Jesus Cristo e a considerar o arreigado culto mariano a essa luz, enquanto riquíssimo fator de mediação. E o caso português tem um especial significado – falamos da Terra de Santa Maria, as dioceses estão consagradas à Mãe de Deus, numa das suas designações antigas a cidade de Faro invoca expressamente Santa Maria, os reis de Portugal entregaram a sua coroa à Padroeira na Restauração. E sem procurarmos muito, encontramos nas origens da nacionalidade a visão da Senhora da Nazaré do Almirante das Armadas D. Fuas Roupinho. E As Memórias Paroquiais de 1758 dão notícia de diversas aparições. Estamos, assim, perante um culto muito difundido – que se projeta Além-Mar na missionação e que encontra uma continuidade com as suas raízes num culto muito antigo e bem consolidado.

UMA CONJUNTURA COMPLEXA

O livro debruça-se sobre o fenómeno de um modo claro e rigoroso, em quatro partes: o Cenário, onde se analisa a conjuntura sociopolítica e económica de 1917; o Acontecimento, sobre o fenómeno das visões (do Anjo, marianas de maio a outubro de 1917 e o que seguiu); as Personagens, envolvendo os videntes e os supervisores; e a Mensagem – fases de apropriação, segredo e perspetiva de futuro. Publica-se ainda um importante apêndice sobre o trabalho documental. A conjuntura de 1917 é um caldo de cultura rico em acontecimentos, num período marcado pela questão religiosa portuguesa, coincidente com o anticlericalismo que acompanhou a implantação da I República. Apesar dos apelos de católicos como Abúndio da Silva no sentido de uma renovação da Igreja e de uma maior independência do poder político, a verdade é que a orientação laicista e os excessos na hostilização religiosa prevalecem (como a faculdade legal de dissolução das mesas administrativas das irmandades e confrarias e sua substituição ou a posse pelo Estado dos bens das extintas ordens religiosas), num ambiente de grande tensão social, sobretudo fora de Lisboa e dos grandes centros urbanos. A entrada de Portugal na Grande Guerra viria, porém, a dar lugar à necessidade de um apoio de teor religioso. “Afinal, a função da religião para a vivência pessoal e social ia além do racionalismo e da instituição clerical”. A defesa dos interesses marítimos e coloniais levaram à entrada no conflito, com número assinalável de baixas. Em janeiro de 1917 começam a chegar a França os primeiros contingentes do Corpo Expedicionário Português e o executivo chefiado por António José de Almeida permite a presença de 15 capelães para 50 mil homens, embora sem vencimento. Este serviço revelar-se-á da maior importância, com forte apoio da sociedade.

UM ANO PLENO DE ACONTECIMENTOS

O ano de 1917 foi denso de factos: os bispos portugueses assinam uma Instrução Pastoral Coletiva na qual se diz que os católicos não devem eximir-se de funções ou cargos públicos, o que levará à constituição do Centro Católico (onde se destacará António Lino Neto); em dezembro ocorre o golpe militar de Sidónio Pais, que institui a chamada “República Nova”, abruptamente interrompida um ano depois em virtude do assassinato do Presidente. O certo é que se inicia um período de atenuação da crise religiosa, que corresponde (conforme Luís Salgado de Matos em A Separação do Estado e da Igreja, D. Quixote, 2010) à concordata informal de Sidónio Pais, à orientação pacificadora de Bento XV, à abertura do Presidente António José de Almeida, tendo entretanto ocorrido a beatificação de Nuno Álvares Pereira em 1918 E bem longe, em outubro de 1917, as convulsões sociais na Rússia culminariam na queda do czarismo e depois na revolução bolchevique. Tudo isto está em pano de fundo em Fátima. O centro do fenómeno encontra-se na mensagem – ligada ao amor, à oração, à conversão e à paz. Estamos, como salienta o autor, perante visões, encaradas como “diálogos interiores, com a ajuda do Espírito Santo”, resultantes de um “mecanismo natural de projeção, de compensação, de diálogo transposto para um encontro”. As “visões são olhares humanos, a partir do olhar de Deus sobre a nossa realidade, para provocar e mover a Humanidade a corresponder ao maior bem criador de esperança no futuro”. Esse o ponto fundamental de que parte o autor, projetando essa hermenêutica na evolução histórica que reforçará a mensagem: desde a primeira Guerra Mundial e da epidemia da pneumónica até ao atentado ao Papa João Paulo II em 13 de maio de 1981… E é a tensão complexa entre a religiosidade popular e a visão cristã da relação entre Deus e os homens que, no fundo, aqui está bem presente.

Guilherme d'Oliveira Martins

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