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Uma Peça | Um Museu

Pote dos Agostinhos

A iconografia da decoração, o mistério que envolve a data de execução, o mercado de destino e o facto de integrar um grupo restrito de objetos de encomenda europeia à China, são os dados que fazem deste pote uma peça incontornável do acervo cerâmico do Museu Nacional de Arte Antiga.


Pote dos Agostinhos
China, dinastia Ming, período de Wanli 
(1573-1619), c. 1575-1600
Porcelana branca decorada a azul sob o vidrado
Fornos de Jingdezhen, província de Jiangxi
Prov. Compra (Grupo de Amigos do Museu e Legado Valmor), Amesterdão, 1959
Inv. 6917 Cer 

Conhecida por “pote dos Agostinhos” devido à presença da insígnia da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho — águia bicéfala sobrepujada por coroa de cinco florões sobre coração trespassado por duas setas — na decoração, esta peça e outros vasos semelhantes têm suscitado inúmeros estudos nacionais e estrangeiros, por ora inconclusivos quanto ao mercado a que se destinavam bem como à data da sua execução. 

Embora a decoração deste pote tenha sido relacionada com o brasão dos Habsburgos, Diez de Rivera esclarece que a inclusão da águia bicéfala na insígnia dos Agostinhos ocorreu após a descoberta da imagem milagrosa do Menino Jesus de Cebu, em 1564, tendo Filipe II de Espanha concedido o privilégio do seu uso aos agostinhos do Arquipélago das Filipinas. Assim sendo, tais objetos teriam sido encomendados por agostinhos espanhóis. 

No entanto, a presença da Ordem Agostiniana em Portugal e no vasto império português no Oriente, bem como a inclusão da águia bicéfala coroada na produção bordada indo e sino-portuguesa dos séculos XVII e XVIII, parecem inviabilizar a certeza de uma atribuição aos agostinhos espanhóis. Acresce o facto de Filipe II, seu filho e seu neto terem detido a coroa de Espanha e de Portugal desde 1580 até 1640. Por outro lado, a inclusão de edifícios que evocam as igrejas coloniais do México abre ainda a hipótese de tais potes terem sido destinados ao mercado mexicano. Fossem para agostinhos espanhóis ou portugueses, não é de excluir que a encomenda tenha sido feita por via portuguesa dada a vasta experiência demonstrada nesta matéria desde o primeiro quartel do século XVI. 

A data da encomenda continua a ser uma incógnita. Ainda que as características materiais, formais e decorativas situem a peça no final do século XVI, a ausência de documentação concreta relativa à encomenda dificulta precisar a data da execução. Mesmo assim, Rivera sugere como data possível c. 1575, ano da primeira viagem feita pelos espanhóis à China.

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