"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"

Obras de referência da cultura portuguesa

"SABINA FREIRE"

de MANUEL TEIXEIRA GOMES
Análise de Duarte Ivo Cruz
Tradução de Alexandra Leitão

Merece referência esta peça única de Teixeira Gomes, pela singularidade do tema e sobretudo da estrutura cénica: mas também pela forma atípica e original que assume, no contexto do teatro do seu tempo. Singularidade não é palavra vã neste caso concreto, pois bem singular foi o destino do autor, repartido com brilho mas com profundo ceticismo e descrença, e com uma ironia triste, entre a diplomacia, a  politica e a literatura. Na diplomacia, foi Embaixador em Londres durante a primeira Grande Guerra; na política, foi Presidente da República, cargo a que renunciou; na literatura, deixou uma obra importante - e um dos livros  chama-se, precisamente, "Gente Singular".

Ora, não por acaso, Teixeira Gomes qualificou a  sua peça única com comédia. E no entanto, trata-se de um dramalhão que até estaria fora de época e próxima do ultra-romantismo, se não fosse esse distanciamento cético e irónico, alguns diriam cínico, do autor, face aos seus personagens. Daí que efetivamente a "Sabina Freire" seja uma terrível comédia de costumes, com a capacidade de condenação, pelo ridículo - mas um ridículo doloroso - da época, do meio social e da mentalidade...

A galeria de personagens impõe-se e fala por si. E contem um equívoco generalizado, que marca o distanciamento irónico do autor. Nenhum dos personagens é aquilo que se apresenta. Todos eles são máscaras teatrais e sociais. A única coisa bem real é o desencanto que acaba por ficar, pois nem o dramalhão convence. E é essa a grande arte de Teixeira Gomes. Reconhece-se que essa grande arte é mais eficaz na literatura do que na cena: e que há situações teatralmente menos bem resolvidas. Mas muito embora, a força teatral subsiste e é valorizada por uma dimensão literária verdadeiramente brilhante.

E isto por que essas máscaras são elas próprias, também profundamente teatrais e identificam muito claramente esse ceticismo irónico do autor. Desde logo o falso cosmopolitismo da protagonista, no fundo uma provinciana deslumbrada - e estamos em 1905... Depois, a falsa virtude e hipocrisia da D. Maria, o excesso poético ultra-romântico do Júlio Freire, a erudição oca do Dr. Fino, o ridículo ajanotado do Josezinho e do Epifânio e por aí fora. Dir-se-á que não há aqui nada de original, mas não é assim. Todos estes personagens levam-se a sério, mas o autor não os leva a sério e ainda menos o espectador.

E mais: se o espectador não os leva a sério hoje, o autor, quando os criou há mais de 100 anos, já não os levava a sério. Mas aí está um dos grandes méritos de Teixeira Gomes: ele percebeu que o teatro, a sociedade, a vida tinham evoluído, mas sobretudo muito mais iriam evoluir. E por cima de tudo, o desencanto que o levou a resignar a presidência da Republica e a auto-exilar-se para a Argélia, onde morreu em 1941.

"Sabina Freire" é pois uma peça dura, mas assenta num encadeado de equívocos que o autor magistralmente conduz. Terá, repetimos, carências de técnica teatral, mas não as tem na eficácia literária das falas e sobretudo, na capacidade de definir um clima e um ambiente. Tudo, repita-se com a ironia desencantada do autor, e com a enorme capacidade descritiva que Teixeira Gomes nos legou na sua obra literária. É aliás um dos tais casos flagrantes de "desperdício" em que somos tão reincidentes. Pois em qualquer meio teatral e/ou universitário mais consistente, esta peça constituiria, com todos os defeitos de técnica, um caso de referência e de estudo.

Mas só foi representada profissionalmente uma vez e há mais de 30 anos!



"SABINA FREIRE"
 
by MANUEL TEIXEIRA GOMES

It is worth mentioning this one and only play by Teixeira Gomes, given the unusual theme and above all the stage structure, but also because of its atypical and original form within the context of the theatre of its time. The word “unusual” is not used here in vain, seeing that the author’s fate was also unusual, being divided with brilliance but great scepticism and disbelief, and with sad irony between diplomacy, politics and literature. As a diplomat he was Ambassador to London during the First World War, in politics he was President of the Republic and then resigned, in literature he left important works and one of his books is called precisely “Gente Singular”.

It was not by chance that Teixeira Gomes described his only play as a comedy. Nevertheless, it is a melodrama that would be out of date and close to ultra-romanticism were it not for the sceptical and ironical, some might call it cynical, distancing of the author vis-à-vis his characters. Hence that "Sabina Freire" is a terrible comedy of customs, capable of condemning through ridicule, painful ridicule, however, an era, a social class and the mentality.

The cast of characters speaks for itself. It contains a generalised mistake which marks the author’s ironic distancing. None of the characters is really what he or she seems. All are theatrical and social masks. The only real thing is the disenchantment that remains as not even the melodrama is convincing. That is the great art of Teixeira Gomes. We see that this great art is more effective in literature than on stage, and some situations are not theatrically well resolved. Nevertheless, the theatrical force remains and is enhanced by a truly brilliant literary dimension.

Many of the masks are themselves, deeply theatrical and clearly identify the author’s ironic scepticism. To start with there is the false cosmopolitanism of the character who is basically an overawed countrywoman. This is 1905! Then the false virtue and hypocrisy of D. Maria, the excessive ultra-romantic poeticism of Júlio Freire, the empty erudition of Dr. Fino, the foppish ridicule of Josezinho and Epifânio and so on. We could say that none of this is original but that is not quite true. All these characters take themselves seriously, but the author and the spectator do not.

More, if today the spectator does not take them seriously, then whoever created them more than 100 years ago did not either. That is one of Teixeira Gomes’s great merits: he understood that the theatre, society and life had evolved, but that they would continue to evolve considerably. All this with the author’s disenchantment that led him to resign from the Presidency of the Republic and go into exile in Algiers, where he died in 1941.

“Sabina Freire” is thus a hard play based on a chain of errors which is skilfully conducted by the author. It is of course lacking in theatrical technique, but the speeches are literarily efficient, particularly in their capacity to define a climate and an atmosphere. All with the author’s disenchanted irony, with the enormous descriptive capacity that Teixeira Gomes left us in his literary work. This is one of the flagrant cases of “waste” we are so good at. In any theatrical and/or university environment this play, even with all its technical faults, would be a reference and a case study.

However, it was only once performed professionally and that more than 30 years ago!



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