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Uma Peça | Um Museu

ECCE HOMO

Esta é certamente uma das imagens mais misteriosas e singulares criadas pela arte portuguesa, a ocultação do olhar deste Ecce Homo constituindo um elemento figurativo de absoluta originalidade na iconografia cristológica da pintura europeia. 

Uma peça do Museu Nacional de Arte Antiga.

 

Ecce Homo
Mestre Desconhecido
c.1570
Madeira de carvalho
89 x 65 cm
Proveniência: Convento extinto, 1834
Museu Nacional de Arte Antiga, Inv. 433 Pint

Representação de um corpo mortificado, de olhar velado por uma túnica branca que prefigura a mortalha, emergindo de um escuríssimo fundo neutro como uma silenciosa mas fortíssima presença intemporal no espaço do próprio observador, esta é certamente uma das imagens mais misteriosas e singulares criadas pela arte portuguesa, a ocultação do olhar deste Ecce Homo constituindo um elemento figurativo de absoluta originalidade na iconografia cristológica da pintura europeia. Já Reynaldo dos Santos, referência fundamental na historiografia da arte portuguesa e que considerava a obra como “um quadro de devoção que traduz um dos aspetos mais expressivos do dramatismo concentrado da nossa arte”, sublinhava há meio século o potencial emotivo desse dispositivo da representação: “De desenho arcaízante e tonalidades quase monocromáticas, com um certo sabor de ícone bizantino conferido pela simetria hierática da figura, aureolada de ouro, o Ecce Homo do museu de Lisboa está impregnado de um sentimento patético a partir da misteriosa ocultação dos olhos de Cristo” (Santos 1953, p. 64).

A singularidade da imagem não implica, porém, uma unicidade da obra. Com idênticas dimensões e composição figurativa, existem em território português mais duas versões sobre madeira (Museu do Convento de Jesus, em Setúbal, e Museu Rainha D. Leonor, em Beja) e uma outra, sobre tela, nas reservas do Museu Nacional de Arte Antiga. No coro alto do mosteiro de Santa Clara do Funchal (Madeira) situa-se também uma pintura, mais tardia, inspirada nesta representação. Embora se desconheçam as específicas proveniências das duas peças do MNAA, a histórica geografia das outras versões indiciam particular devoção e vitalidade de culto desta singular imago pietatis em mosteiros de clarissas coletas, supondo a sua intrínseca ligação à religiosidade franciscana.

A historiografia nunca dissimulou a sua sedução por outros mistérios desta obra indocumentada, nomeadamente no que se refere a aspetos autorais e de cronologia. Como se pode verificar em praticamente todos os livros de história da arte portuguesa publicados no século passado, muitos historiadores e ensaístas fizeram do Ecce Homo do MNAA uma espécie de ícone da pintura portuguesa do século XV, alguns atribuindo-o, em bases puramente “sentimentais”, ao mais destacado mestre da época, Nuno Gonçalves, autor do célebre políptico de S. Vicente (MNAA). Estudos recentes vieram permitir entretanto uma maior objetividade na datação do painel e desvalorizar uma certa mitificação historiográfica da obra. Um exame dendrocronológico do suporte da pintura concluiu que esta só pode ter sido executada depois de 1570, datação muito mais tardia que a que lhe era geralmente consignada e que vem reforçar a hipótese de ter existido uma protótipo antigo desta imagem, talvez do século XV, que serviu de modelo a esta como a outras das versões conhecidas. O estudo dendrocronológico da versão do museu de Setúbal, muito restaurada, veio também revelar a sua anterioridade cronológica (c. 1535-1540?) relativamente ao painel do MNAA.

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